Larissa foi abandonada pelos pais biológicos, que eram toxicodependentes, numa praça de Palmas de Monte Alto, no estado brasileiro da Bahia, quando ainda era um bebé. Depois de ser encontrada, foi dada para a adoção. Mas a criança, que tem agora sete anos, já foi devolvida três vezes, em processos de adoção. Em 2016, Larissa encontrou os pais adotivos atuais. A história desta criança é contada numa reportagem publicada pela BBC.

No Brasil, a lei permite desistir de uma adoção durante a fase de convivência provisória, que tem um mínimo de 30 dias, e um prazo fixado, de acordo com cada caso, por um juiz. Com Larissa isto aconteceu três vezes.

Em 2014, a menina iniciou um processo de adoção com um casal do estado de Ceará e foi viver para Fortaleza. O casal acabou por a devolver, argumentando que era uma criança insubordinada e com um temperamento difícil, o que dificultava a convivência . Nos outros dois casos em que Larissa foi devolvida, o argumento foi o mesmo.

Em 2016, Larissa encontrou Rutiline de Sousa, de 45 anos, que a adotou e é agora a sua mãe. A mulher conta que, no início, foi muito difícil, porque a criança desenvolveu traumas, em consequência das rejeições que sofreu.

A menina estava assustada e era desconfiada. Era como se me pusesse à prova constantemente. Era como se me testasse para ver se eu realmente a queria. Isso refletia-se nas relações com as pessoas e até no próprio sono, que era agitado”, disse Rutiline.

A história de Larissa é muito comum no Brasil. Nos últimos cinco anos, só em 11 estados do Brasil, houve 172 registos de crianças que foram devolvidas, na fase provisória de convivência com possíveis pais adotivos.

Mas não são só as crianças que sofrem com estas situações. Roberto, funcionário público no Brasil, de 44 anos, conta que desistiu de uma adoção em 2014 e que foi muito doloroso.

Depois da devolução fiquei destroçado. Senti-me o último dos homens. Literalmente rebolei no chão de dor. Não desejo isso a ninguém”, desabafou.

Para Roberto, o sonho da paternidade começou a desaparecer logo no início da convivência provisória com a criança, que tinha dois anos na altura.

O dia-a-dia com a criança é muito diferente do sonho. Comecei a ficar cansado física e emocionalmente, quando o meu companheiro começou a desistir. Entrei em depressão e concluí que não seria bom para a criança ficar comigo, mas foi uma decisão muito difícil”, referiu.

Roberto e o companheiro entraram para a lista de espera para adotar uma criança em 2011. Foram três anos de espera até receberem a criança, com quem conviveram durante três meses.

Hoje já não quero adotar. Foi muito sofrimento. Achava que ia dar conta do recado, mas não consegui. Isto mexeu muito com a minha vida, com as minhas crenças e a minha perspetiva de amor. Não sei se vamos recuperar disto”, acrescentou Roberto.

Regressando agora ao caso de Larissa, a menina tem uma vida tranquila com a mãe Rutiline, mas continua a fazer sessões semanais de terapia.

No início, teve diversas crises, que se manifestavam em sintomas como confusão de identidade e dificuldade de concentração.

Tudo era não. Se dizíamos que era hora do banho, ela dizia não. Era irrequieta no colégio, não prestava atenção a nada e discutia com os colegas e a professora."
 

Hoje as coisas estão a ajustar-se. A fase de testes passou e ela começa a perceber que, desta vez, a relação é para sempre”, remata a mãe.