O Governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) anunciaram na quarta-feira um acordo de paz sem precedentes, depois de quatro anos de duras negociações em Cuba, para acabar com 52 anos de guerra civil.

Chegámos a um acordo para a paz final, completa e final”, lê-se num texto assinado por ambas as partes e lido pelo diplomata cubano Rodolfo Benitez, em Havana, sede das negociações da Colômbia, desde novembro de 2012.

A guerra, que começou em 1964, é o último grande conflito armado nas Américas e provocou a morte a 260.000 pessoas, deslocou 6,8 milhões e deixou 45.000 desaparecidos.

Atingimos o nosso objetivo", afirmou Humberto de la Calle, político colombiano. "A guerra chegou ao fim e com ela um novo começo. Este acordo vai abrir portas a uma sociedade mais inclusiva", completou. 

Foi uma tarefa difícil, com momento altos e baixos", afirmou Ivan Marquez, representante das FARC nas negociações. "Trabalhámos com o coração e agora podemos dizer que vamos levar o país para a frente", acrescentou.

Mal apareceu num ecrã gigante, instalado no Parque dos Hippies, da capital colombiana, a imagem dos negociadores a rubricarem o acordo de paz, uma multidão gritou, com júbilo, “sim, podemos”.

“Ganhámos a mais bela de todas as batalhas”

O chefe negociador das FARC nas negociações de paz afirmou, na noite de quarta-feira, que ganhou “a mais bela de todas as batalhas” com o histórico acordo de paz alcançado com o governo.

Creio que ganhamos a mais bela de todas as batalhas, a da paz da Colômbia”, afirmou Luciano Marín Arango, conhecido como “Iván Márquez”, o ‘número dois’ da maior guerrilha do país.

O representante das FARC assinalou ainda que o acordo – alcançado ao fim de quase quatro anos de negociações e que visa pôr termo a mais de meio século de guerra civil – não só é “o mais desejado da Colômbia”, como “acaba com a guerra de armas” e permite “o começo do debate de ideias”, lançando “as bases para a paz e a convivência”.

Por sua vez, o Presidente da Colômbia saudou com “profunda emoção” e uma “grande alegria”, o histórico acordo de paz alcançado entre o governo e as FARC, congratulando-se com o fim da “tragédia da guerra”.

Colombianos, dirijo-me hoje a vocês com uma profunda emoção, uma grande alegria. Hoje começa o fim do sofrimento, da dor, da tragédia da guerra”, declarou Juan Manuel Santos, durante um discurso, a partir do palácio presidencial Casa de Nariño, em Bogotá.

O Presidente colombiano – que falou ao país imediatamente depois do anúncio oficial do acordo de paz – revelou que ainda hoje vai enviar ao Congresso o texto do acordo de paz firmado entre o governo e a maior guerrilha do país, para que seja convocado o plebiscito previsto que, segundo anunciou, vai realizar-se a 2 de outubro.

ONU e União Europeia felicitam acordo de paz

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, felicitou a Colômbia pelo acordo de paz e pediu um esforço “determinado e exemplar” para que seja aplicado.

O secretário-geral [da ONU] deseja felicitar calorosamente o Presidente Juan Manuel Santos, o líder das FARC, Timoleon Jiménez, e as suas equipas negociadoras em Havana pelo seu árduo trabalho e perseverança para chegar a esta etapa do processo”, disse, em comunicado, o gabinete do porta-voz de Ban Ki-moon.

Também a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini, manifestou satisfação pelo acordo de paz, considerando que se trata de uma oportunidade histórica.

O anúncio do acordo de paz, em Havana, entre as FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército Popular) e o governo da Colômbia é motivo de celebração. É uma oportunidade histórica e única para a paz na Colômbia alcançada após uma longa negociação que exigiu uma grande vontade política e perseverança”, refere Mogherini através de um comunicado.

A alta representante para a política externa da União Europeia acrescenta que já contactou o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que a informou sobre os “acontecimentos históricos” que decorreram em Cuba e que deram origem ao final das negociações entre o Executivo da Colômbia e a guerrilha mais antiga da América Latina.

Já o presidente do Parlamento Europeu (PE), Martin Schulz, lembrou que “gerações de colombianos” aguardavam a paz, saudando o acordo entre o Governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Schulz considerou, em comunicado, que “gerações de colombianos esperavam por este momento e muitos pensavam que nunca chegaria”.

O dia de hoje celebra aqueles que, pela perseverança e coragem, nunca deixaram de acreditar na paz”, referiu ainda.

Também o presidente norte-americano Barack Obama contactou Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, para o parabenizar pelo feito alcançado.

Quem são as FARC?

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são a maior organização rebelde da Colômbia. Foram fundadas em 1964 como a vertente armada do Partido Comunista, seguindo uma ideologia marxista-leninista. Desde então, lutam contra o governo colombiano no mais longo conflito da América Latina.

Os seus fundadores eram essencialmente agricultores que se uniram para lutar contra a desigualdade de condição social verificada na Colômbia na altura. Assim, ainda que as FARC tenham algumas componentes urbanas, sempre foram um grupo marcadamente rural. 

Antes da fundação das FARC, a Colômbia tinha sido já assolada por dez anos de guerra civil. Atualmente, contam com cerca de sete mil soldados e oito mil e 500 civis organizados em grupos de pequenas dimensões que, juntos, se organizam em blocos regionais.

Até à passada quarta-feira, o principal inimigo deste grupo eram as forças de segurança do governo colombiano. Contudo, nos últimos quatro anos, tinham já chegado a acordo relativamente à reforma agrária, ao envolvimento das FARC no tráfico de drogas, ao desarmamento, participação politica do grupo, à justiça que devia ser feita às vítimas do conflito e à forma como seria implementado o acordo de paz.