A central nuclear de Almaraz está a trabalhar com uma potência superior àquela para que foram desenhadas as suas peças e pode contar componentes que não passaram nos controlos de qualidade do fabricante, alerta a Greenpeace-Espanha.

É uma central nuclear com dois reatores que já estão a chegar ao final da sua vida útil. Tanto o reator 1 como o reator 2 rondam os 33 e os 36 anos, respetivamente. Além dos problemas habituais numa central nuclear [com esta idade], no caso da central de Almaraz fez-se uma repotenciação - está a trabalhar com uma potência superior do que aquela para a qual foram desenhadas as peças - o que constitui um outra motivo de preocupação", explicou em entrevista à Lusa a responsável pela campanha anti-nuclear da Greenpeace, Raquel Montón.

No sábado realiza-se uma manifestação ibérica (com protestos de ambos os lados da fronteira) pelo encerramento da central nuclear de Almaraz (dois reatores em operação desde 1983 e 1984), na comunidade autónoma espanhola da Extremadura, à beira do Tejo e a cerca de 100 quilómetros de Portugal. O protesto tem já confirmada a presença de mais de 400 portugueses de vários pontos do país.

Nos últimos nove anos, a central notificou (de forma obrigatória) o Conselho de Segurança Nuclear (CSN) em 87 ocasiões, reportando problemas como "a perda de capacidade de comunicação entre o seu Centro de Apoio Técnico de Emergencia (CAT) e a Sala de Emergências do CSN", a "omissão de algumas das rondas de vigilância que se realizam a cada hora nas zonas onde existe um risco de incêndio" ou o "arranque automático do sistema de ventilação de emergência da Sala de Controlo" da central.

Em termos concretos, nos últimos dois meses, detetaram-se falhas e avarias nos circuitos primárias de refrigeração dos reatores. A decisão do Conselho de Segurança Nuclear, em vez de pará-los para averiguar o que aconteceu, foi a de esperar pela paragem [programada] de recarga [de combustível físsil]. Este é um motivo de preocupação muito grave e muito sério", acusou a ambientalista.

Outro dos problemas, salientou, é o paradeiro de componentes fabricados pela empresa francesa Areva, que não terão passado nos controlos de qualidade.

Em segundo lugar estamos preocupados porque a Areva, a empresa francesa que fornece equipamento nuclear, anunciou há cerca de 20 dias que mais de 400 dos seus componentes não passaram os controlos de qualidade a que foram submetidos. Entre estas 400 peças utilizadas como sobressalentes, 50 estão localizadas em centrais nucleares francesas, mas as restantes estão em vários reatores nucleares, entre os quais os de Almaraz", adiantou Raquel Montón.

A Greenpeace pediu explicações ao CSN e perguntou se o operador [Iberdrola e Endesa] também já tinha solicitado informações adicionais ao fornecedor.

Estamos à espera que se localizem estes componentes. Do nosso ponto de vista, logo que se soube essa notícia [da Areva] já deveríamos saber tudo sobre onde estão", sublinhou.

A empresa francesa Areva indicou que uma auditoria de qualidade tinha detetado "irregularidades nos registos de fabrico de equipamento para centrais nucleares", mas sublinhou que "esta análise não tinha abordado a integridade mecânica dos componentes fabricados".

A central de Almaraz "tem ainda outros quatro anos de licença em vigor", pelo que os trâmites para a renovação de licença (para mais três anos) começariam em 2017, no próximo ano. Das sete centrais nucleares espanholas em funcionamento (uma oitava está parada), a de Santa Maria de Garoña (comunidade de Castela-Leão, norte de Espanha) é a única com um pedido de renovação de licença.

Almaraz seria a seguinte, por isso o que se passar com Santa Maria de Garoña servirá para vermos como vai correr. Mas o que se deveria estar a fazer era um calendário para a desativação das centrais nucleares em Espanha", considerou Raquel Montón.

As centrais nucleares espanholas representam cerca de 20% da procura elétrica do país vizinho, mas o Greenpeace acredita que poderiam ser todas desligadas e suprir esta percentagem com renováveis (eólica e hídrica).

"Em Espanha o nuclear é dispensável por causa do enorme potencial de energia renovável que o país tem. Espanha tem mais do dobro da potência instalada do que necessita, pelo que se parássemos todas as centrais nucleares não haveria nenhum problema de segurança de abastecimento", concluiu.

Regulador manipula risco das centrais nucleares espanholas

A Greenpeace acusou ainda o Conselho de Segurança Nuclear espanhol de "manipular" a avaliação que faz dos eventos de notificação obrigatória nas centrais nucleares do país vizinho, para que estes sejam classificados como acontecimentos de pouca importância.

Na primavera de 2015 o Conselho de Segurança Nuclear (CSN) fez uma modificação da forma como avalia os eventos [de notificação obrigatória nas centrais] da escala INES de forma a que muitos dos classificados no nível 1 (em cinco) sejam reclassificados como zero. Eu classifico isto como manipulação", disse à agência Lusa a responsável pela campanha anti-nuclear da Greenpeace, Raquel Montón.

No entanto, a grande maioria destes eventos estão classificados com o grau zero (0) na Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES), ou seja nem entram na escala. A não realização de todas as rondas de vigilância nas zonas de risco de incêndios estão classificadas no grau 1 (em sete), ou seja são considerados uma "anomalia" (o nível dois é "incidente" e o sete é "acidente grave").

A Greenpeace contesta a forma como o supervisor da segurança nuclear espanhola classifica estes eventos.

Neste momento, se o operador [da central] não se tiver dado conta de um determinado evento, este passa automaticamente a ser classificado como zero e não como 1. Ou seja, a escala INES não avalia o grau de negligência, apenas o risco", contou Raquel Montón, em entrevista à Lusa.

A ambientalista deu mesmo um caso quotidiano para exemplificar o que, na sua opinião, se está a passar nas centrais espanholas.

Quando tens um problema no teu carro, estás a correr a um risco quer te apercebas dele ou não. E se não sabes que ele existe, então possivelmente esse é o maior risco. Nas centrais nucleares, se o operador não se apercebe de um problema, então ele passa a estar classificado como zero e muitos passam a zero. A escala INES pretende informar o público do grau de risco e isto faz o contrário", apontou Raquel Montón.

Contactado pela Lusa, o CSN desvalorizou esta acusação, remetendo para uma nota de imprensa de 2015 na qual refere que "este é um assunto de ordem interna e de caráter puramente laboral [já que envolve um técnico afastado das funções por não concordar com a reclassificação], que não compromete nem a segurança das centrais nucleares nem a comunicação feita sobre a mesma".

Sobre os possíveis impactos para Portugal de um acidente nuclear na central de Almaraz, Raquel Montón e a Greenpeace estão pessimistas.

Da nossa análise e medições no terreno em Fukushima e Chernobyl [ambos acidentes nucleares de grande impacto para as populações] chegamos à conclusão que perante um acidente nuclear não há solução possível nem remédio. Há melhor ou pior gestão [do acidente] 'a posteriori', mas não há solução ou remédio. É impossível de gerir", apontou.

Portugal e Espanha mantêm "acordos bilaterais" e os mecanismos de proteção civil têm acordos para que, em caso de acidente, possam tomar medidas necessárias e oportunas, explicou a ambientalista.

Mas não há mecanismos válidos. Frente a uma fuga radioativa dependemos da meteorologia, e de várias circunstâncias, mas é impossível controlá-la", disse Raquel Montón.

"O caso de Fukushima (Japão, 11 de março de 2011) mostrou que a evacuação tornou-se difícil, porque determinar que zonas e com que parámetros se deve evacuar [uma área] depende das condições meteorológicas. O que quero dizer é que um acidente nuclear é incontrolável e não tem solução", concluiu.

Protesto ibérico marcado para sábado

A plataforma de associações que está a organizar a participação portuguesa na manifestação ibérica de sábado, pelo encerramento da central nuclear de Almaraz, Cáceres (Espanha), tem já confirmadas mais de 400 pessoas de vários pontos do país.

Estamos bastante otimistas e expectantes com a participação portuguesa nesta manifestação, que vai ser, de longe, a maior presença portuguesa em manifestações do género. Neste momento, temos confirmadas mais de 400 pessoas e até sábado certamente que mais irão", disse hoje à agência Lusa Nuno Sequeira, da organização ambientalista Quercus.

Segundo o representante, este é um sinal "muito claro" de que a sociedade portuguesa está mobilizada em torno da questão do nuclear e da central de Almaraz, em concreto.

Há efetivamente um interesse crescente em torno da central nuclear e dos perigos que esta representa", afirmou.

O ambientalista adiantou ainda que há também "um sinal muito forte" dirigido ao executivo português: "O Governo deve perceber que a sociedade está cada vez mais unida à volta desta questão e que exige que sejam tomadas medidas junto do Governo espanhol para que o interesse e a segurança nacionais sejam defendidos".

Em declarações à Lusa, o eurodeputado Carlos Zorrinho (PS) disse que a manifestação pelo encerramento da central nuclear de Almaraz é inteiramente justificada.

É uma ação cívica inteiramente justificada, tendo em conta o facto de a central estar a operar para além do seu período de vida útil, ter reportado recentemente diversos incidentes de funcionamento e constituir, por isso, um risco efetivo para as populações de Espanha e Portugal, bem como para o rio Tejo", apontou.

O eurodeputado explicou que situações similares têm ocorrido noutras centrais nucleares europeias, com forte reação cívica, e adiantou que 66% das centrais a operar na Europa já ultrapassaram o seu período de vida de referência.

A eurodeputada Marisa Matias (BE) espera que a manifestação de sábado seja um sinal inequívoco de que as populações de ambos os lados da fronteira querem o encerramento deste equipamento.

Urge fechar Almaraz. Esta central nunca deveria ter existido, já ultrapassou o seu tempo de vida em 2010 e o Governo do Estado espanhol ainda quer prolongar o seu funcionamento até 2030", recordou.

Marisa Matias sublinhou que, no âmbito da sua atividade de deputada europeia, acompanhou de perto o acidente da central nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011, na sequência de um forte sismo, com milhares de mortos e desaparecidos.

É um cenário que ninguém pode querer ver repetir-se, nem que seja por uma ínfima probabilidade, muito menos quando essa probabilidade não é assim tão improvável", referiu.

Também o deputado português do PAN está confiante no crescendo que o movimento antinuclear está a tomar.

Sabemos que o próximo Governo espanhol terá que levar em conta a vontade de um cada vez maior número de cidadãos, de ambos os lados da fronteira, para desmantelar esta e outras centrais nucleares que se encontram obsoletas e representam um perigo real e iminente para as pessoas e para o equilíbrio dos territórios", afirmou.

André Silva disse que é "incompreensível" que o Governo português não se empenhe o mínimo em trabalhar para uma Europa sem nuclear e baseada numa rede de energias renováveis e limpas.

Continuamos sem compreender quais os motivos que ainda não levaram os ministros do Ambiente e da Economia a reunir-se com os seus homólogos espanhóis para defender os interesses dos portugueses e dos nossos ecossistemas", sublinhou.

Comissão Europeia acusada de não ter nenhuma ação proativa

O eurodeputado Carlos Zorrinho criticou hoje a postura da Comissão Europeia sobre a central nuclear de Almaraz, acusando-a de não ter nenhuma ação proativa.

Numa nota de imprensa enviada hoje à agência Lusa, o eurodeputado português critica a postura da Comissão Europeia sobre a central nuclear de Almaraz: "Numa central a funcionar para além do prazo, onde recorrentemente têm sido reportadas falhas de funcionamento, a Comissão não tem nenhuma ação proativa. Aguarda. Mas aguardar é pouco".

Carlos Zorrinho recorda também as recentes perguntas que dirigiu à Comissão Europeia sobre a central nuclear espanhola situada junto à fronteira portuguesa.

E, neste âmbito, realça que, na resposta, o comissário espanhol Arias Cañete o informou de que a Comissão aguarda a notificação da transposição das medidas da nova Diretiva Eurotom e que, até lá, a segurança é segundo a lei espanhola, da responsabilidade exclusiva do detentor da licença.

"O programa indicativo nuclear é claro. Com a nova Diretiva Euratom, a UE precisa de 330 mil milhões de euros para encerrar ou modernizar as centrais nucleares que tem em funcionamento, mas só um terço dessa verba está provisionada", sustentou.

O eurodeputado português disse ainda que gostava de acreditar que tudo está a ser feito ao nível da segurança das centrais nucleares.

"Gostava de poder acreditar que a Comissão está a fazer tudo o que devia para promover a segurança das centrais nucleares no território da União, como afirma que está a proceder com a nova central de Ostrovets em construção na Bielorrússia. Em Almaraz, por exemplo, não está", concluiu.

A funcionar desde o início da década de 1980, a central está situada junto ao Tejo e faz fronteira com os distritos portugueses de Castelo Branco e Portalegre, sendo Vila Velha de Ródão a primeira povoação portuguesa banhada pelo Tejo depois de o rio entrar em Portugal.

Em fevereiro, partidos e associações portugueses expressaram a sua preocupação depois de notícias de que inspetores do Conselho de Segurança Nuclear espanhol tinham alertado para “falhas no sistema de arrefecimento de serviços essenciais” da central.