Sempre que a destruição chega com o fogo de agosto a nossa atenção volta-se para os incêndios, para as suas causas, vítimas, para os bombeiros e para os decisores políticos na vã esperança de que eles possam resolver algo naquele momento. Pois, como os grandes fogos da América do norte (nos EUA e no Canadá) dos últimos anos demonstraram, mesmo quando há capacidade material de combate ao fogo por terra e no ar, os fogos “teimam”, na maioria das vezes, em serem pouco controláveis.

O paradoxo da nossa época é o de que apesar de vivermos num momento histórico do “Antropoceno”, em que a ação dos humanos sobre o planeta consegue aumentar a temperatura e provocar alterações climáticas, não conseguimos prevenir através de politicas e organização prévia dos recursos a capacidade destrutiva dos incêndios.

A pergunta que fica é de que serve sermos sociedades tecnologicamente avançadas e socialmente coesas se não conseguimos ainda domar o “fogo” que é por nós mesmos considerado como a base da nossa evolução social e tecnológica.

No entanto, o fumo que cobre o país parece também cobrir duplamente a capacidade de mostrar o que está a acontecer fora de Portugal, quer em termos de incêndios quer em termos do novo tempo de “guerra fria” em que estamos a viver.

Por um lado, temos os incêndios que grassam na Galiza ou em Palma, nas Canárias, já com 7% da área da ilha ardida por culpa, ao que parece, de um turista alemão que queimou um rolo de papel higiénico. A Europa, por sua vez, em Portugal já quase só é notícia quando a solidariedade dos mecanismos europeus para connosco falha, desta vez na ajuda ao combate aos fogos e substituída pela solidariedade do Sul da Europa e de Marrocos.

Por outro lado, temos a nova Guerra Fria que se manifesta, não na reedição da corrida às armas entre os EUA e a União Soviética, mas sim na conflitualidade política em múltiplos países. Nos EUA, temos Donald Trump a, veladamente, considerar a possibilidade de alguém usar armas para impedir Hillary Clinton de governar. Na Rússia, temos as ameaças à Ucrânia depois de supostas tentativas de ataques terroristas na Crimeia – tudo em simultâneo com a reunião com o líder do segundo maior exército da NATO, a Turquia, e o aprofundar da cooperação com o Irão e Azerbeijão. Do outro lado do mundo, o novo Presidente das Filipinas apela a que os cidadãos matem outros cidadãos pelas suas próprias mãos (desde que lhes pareçam traficantes). Na Síria a luta por Alepo continua e os bombardeamentos russos também e na Líbia, mais próximo de nós, o Estado Islâmico enfrenta os bombardeamentos americanos. No resto da Europa, uma “epidemia” de esfaqueamentos por pessoas caracterizadas pelas polícias como “instáveis mentalmente” leva a questionar até que ponto as autoridades não nos querem tranquilizar para não pensarmos demais em terrorismo islamita na Europa.

Mais próximo de nós está a Espanha, com uma guerra fria de nervos com a possibilidade de ao final de oito meses vir a ter governo ou as terceiras eleições em menos de um ano. E em Portugal que guerra fria é a nossa? É uma guerra fria política em torno dos pequenos acontecimentos, que na política são sempre grandes desde que sirvam para derrotar ou fragilizar os oponentes. É o caso das viagens pagas pela GALP ao Euro. Mas na política não há assuntos menores e a imprudência ou inocência paga-se caro, pois a política pode ser preocupação com os cidadãos, mas é sempre luta pelo poder.

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Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.