A economia da partilha, que inclui a compra ou troca de bens usados e a compra em grupo, vale atualmente 400 mil milhões de euros a nível mundial, estimou hoje uma ativista britânica.

Ao discursar na sessão de abertura do Greenfest, o maior evento sobre sustentabilidade em Portugal, Benita Matofska avisou que o ato de partilhar bens em vez de comprar começou como um movimento de franja, mas está gradualmente a tornar-se um fenómeno dominante.

Fundadora e presidente da organização «The People Who Share», criada no Reino Unido para sensibilizar o mundo para a partilha como solução para um mundo mais sustentável, a ativista lembrou que há duas coisas que não se pode mudar: «Vivemos num planeta com recursos finitos (...) e a população vai continuar a crescer».

A solução para esse problema, defendeu, é mudar a forma como se usa esses recursos.

«O que está errado no mundo é que há falta de partilha. O excitante é que isso pode ser arranjado», explicou à Lusa após a conferência.

A economia de partilha, facilitada pelas novas tecnologias e as redes sociais, envolve uma variedade de fórmulas, que passam pela compra e venda de bens em segunda mão, a troca de produtos, a compra em grupo, o aluguer entre pares e até o empréstimo de dinheiro entre cidadãos.

Recordando que há milhares de milhões de libras em recursos não utilizados - brinquedos arrumados em casas, assentos de automóveis vazios, por exemplo - a ativista explicou que «o que a economia de partilha faz (...) é ligar esses recursos às pessoas que precisam deles».

Citando um estudo realizado pela própria organização, Benita Matofska estimou em 330 mil milhões de libras (395 mil milhões de euros) o valor da economia de partilha em todo o mundo.

Afirmou que, só no Reino Unido, onde a organização está sediada, este mercado vale 22,4 mil milhões de libras, ou seja 1,3% do PIB, estimando-se que cresça até 15% nos próximos cinco anos.

«A economia da partilha não é só um sistema que faz sentido, é sobre a ideia de que tem de haver uma mudança cultural», afirmou, recordando que o estudo realizado pela sua organização conclui que 70% das pessoas querem partilhar e que 83% dos norte-americanos levariam um bem emprestado, alugado ou trocado se fosse fácil fazê-lo.

Mas para Benita Matofska, não são só os cidadãos que têm a ganhar com esta nova forma de viver. Todos podem ganhar, incluindo as empresas.

«As empresas não podem deixar de fazer parte disto, porque a economia de partilha já está a acontecer. Há uma mudança na forma como as pessoas e as empresas se ligam entre si», alertou, recordando que com a tecnologia a ligar os consumidores entre si, muda a forma de fazer comércio.

Isto muda também a forma como as empresas funcionam: «Ou participam nesta partilha, ou deixam de estar no mercado».

As empresas «já não podem focar-se no lucro a expensas do impacto social e ambiental» porque os consumidores são cada vez mais informados e responsáveis.

No Reino Unido, explicou, há já vários exemplos de empresas que estão a saber participar na economia de partilha. A B&Q, uma empresa de distribuição de bricolage e decoração, fez uma plataforma para as pessoas partilharem ferramentas, enquanto a Marks&Spencer introduziu o conceito de "shwapping" (mistura de comprar e partilhar em inglês), em que as pessoas doam uma peça de roupa à Oxfam e recebem um desconto de cinco libras numa compra.

Também oradora na conferência de hoje, Paula Guimarães, presidente do Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial, sublinhou que a economia da partilha não é apenas uma economia de troca, tem de prever a criação de valor; e não é apenas uma economia de sobras.

«Não partilhamos só o que não queremos, (...) temos de nos habituar a partilhar tudo, sobretudo o que precisamos», disse a responsável, sublinhando que esta atitude deve partir de uma «generosidade interessada» e não de caridade.