Eram 23 horas quando o sinal sonoro, vindo diretamente da central, soou por todo o quartel. “Saída de viatura para salvamento de animal”, ouviu-se, depois, pela voz da operadora. Foi o início de uma longa noite para o bombeiro Hugo Graça, da corporação de Agualva-Cacém.

Naquela terça-feira, 15 de novembro de 2016, o voluntário era o único subalterno até às 23:00 e já tinha feito dois serviços de emergência em ambulância.

Quando estava a chegar do segundo serviço, já passava das 11 da noite, Hugo viu os seus companheiros (e amigos) de piquete Nuno Duarte e o chefe Jorge Simão prestes a saírem para resgatarem um gato de um poço.

Os dois bombeiros iam cumprir essa missão sozinhos numa viatura pequena. No entanto, com a chegada de Hugo e contando, entretanto, com o apoio de mais uma bombeira – Ana Lavrador –, o chefe tomou a decisão de partir para este resgate com um pronto-socorro pesado.

Afinal, apesar de ser, à primeira vista, uma missão de rotina e até bem simples, o chefe quis prevenir-se, porque podia sempre surgir alguma outra ocorrência mais desafiante ao longo da noite, como um incêndio ou um acidente.

Perante o que viria a acontecer passados alguns minutos, quase que podemos afirmar que a intuição guiou o chefe nesse preciso instante. “Foi mesmo uma sorte”, recorda Hugo Graça, quase um ano após essa noite.

 

Reconhecimento do local quase acaba em tragédia

 

Imediatamente, o motorista Vítor arrancou com o pronto-socorro pesado. O percurso até ao quintal onde estava o poço, numa propriedade privada, na freguesia do Cacém, fez-se entre 3 e 4 minutos. Durante esse caminho, os operacionais não pensaram em nenhuma estratégia para a missão de resgate, por ignorarem completamente a zona em que estaria o pequeno gato aflito.

Em território desconhecido, e numa noite cerrada e fria, os bombeiros tentaram recolher algumas características do poço junto de populares que passavam pela rua, incluindo da proprietária do terreno que, uns minutos antes, estava a passear o cão e acabou por ligar para a corporação, incomodada com o miar aflitivo do gato.

“O poço tem uns 2 metros, 2 metros e meio… Não tem mais profundidade do que isso. No máximo dos máximos, deve ter uns 4 ou 5 metros”, garantiram os transeuntes aos operacionais.   

Com falta de visibilidade, Hugo, Jorge, Nuno e Ana entraram no quintal para tentarem fazer o reconhecimento do local. Até hoje, Hugo recorda-se da espessa vegetação que tanto lhes dificultou a missão de encontrar o tal poço: “Existia muito loureiro denso, o que, juntamente com a falta de iluminação, nos impedia de achar facilmente o gato”.

Guiados pelo miar do animal, os bombeiros ainda estiveram uns poucos minutos a tentar localizar o poço e aperceberam-se da existência de uma chapa. Foi debaixo dessa placa que os seus ouvidos identificaram os apelos de ajuda do felino.

Hugo ficou do lado de fora do muro para receber a chapa, que estava a ser tirada por Nuno e Jorge. Até que tudo aconteceu. Às 23:48, enquanto os dois bombeiros tentavam afastar essa tampa metálica, toda a cobertura do poço ruiu. Ambos caíram para um imenso e escuro vazio de 20 metros de profundidade.

 

Uns 20 metros que pareceram 200

 

Incrédulo com o que tinha acabado de acontecer, Hugo espreitou logo para o poço e tentou comunicar com os seus dois colegas. De pé, Nuno conseguia responder. Já o chefe estava semiconsciente.

Sem ter tempo a perder, Hugo pediu a Ana que entrasse logo em contacto com o quartel para solicitar mais meios de salvamento e muniu-se do equipamento necessário, que estava no pronto-socorro pesado, para chegar junto de Nuno e Jorge e tentar socorrê-los o mais depressa possível. “A primeira coisa em que pensei é que tinha de descer aquele poço para que eles subissem… Mas a situação revelou-se muito mais complicada…”.

Na verdade, aquele era um poço antigo, já desgastado por anos e anos de abandono, cujas marcas eram visíveis pela ferrugem imensa.

Quando começou a descer através de uma corda, presa numas roldanas, Hugo receou que houvesse um outro desmoronamento que colocasse também a sua vida em risco: “Conforme ia andando para o fundo do poço, reparei em como tudo ia quebrando à volta. Não podia apoiar nem as mãos, nem os pés, nas paredes do poço. Caso contrário, a estrutura podia ruir mais uma vez e eu também podia ficar lá, imobilizado”.

Os momentos foram de tensão. Com as roldanas a serem controladas pelos seus colegas, que, entretanto, tinham atendido ao pedido de Ana e chegaram rapidamente, de ambulância, ao quintal, aqueles 20 metros pareceram 200 com o medo de que o poço voltasse a ruir.

O bombeiro pedia que os colegas apressassem a descida: quanto mais tempo passava, mais vezes Hugo acabava por colocar as mãos e os pés nas paredes, para se apoiar. E, sempre que isso acontecia, o risco de desmoronamento aumentava. O perigo era evidente. Hugo tinha pensado e agido com o coração, o que lhe podia sair bem caro.

Felizmente, após esses minutos (provavelmente os mais difíceis desta missão para Hugo), o bombeiro conseguiu chegar ao fundo do poço, falar com Nuno e Jorge e prestar os primeiros socorros. Nessa altura, Hugo já tinha tomado a decisão de esperar pelos reforços das equipas de resgate de Almoçageme e Queluz: não queria arriscar tirar os dois colegas daquela escuridão sem uma ajuda mais complexa, devido à instabilidade do poço, ainda para mais perante o estado grave em que Jorge se encontrava – mal se conseguia movimentar.

Para assegurar o maior conforto possível até a ajuda chegar, Hugo teve a ideia de desenterrar Nuno, que permanecia em pé, com lama até aos joelhos. Porém, o colega mostrava-se muito hesitante em se mexer após a queda. No entanto, quando as dores começaram a atormentar o seu corpo, Nuno, finalmente, concordou que Hugo o deitasse ao lado do chefe, para ficar numa posição mais cómoda.

A ajuda exterior tardava, no decorrer daquelas duas horas. Além de prestar os primeiros socorros aos dois camaradas, perante os apelos angustiantes que ecoavam pelo poço, Hugo manteve sempre o sangue frio, resultante de mais de 20 anos de experiência, e tentou passar uma calma que, para quem está fora do poço, seria impossível transmitir.

 

Uma amizade do fundo do poço para toda a vida!

 

Naquele poço, enfrentaram-se novos desafios, sofreram-se dores inimagináveis… e até se iniciou uma bela amizade improvável! É que, no meio de toda a escuridão, Hugo reparou em dois pequenos olhos, tão brilhantes que se assemelhavam a uns faróis: tratava-se do gato – ou melhor, da gata bebé – cujo miar incómodo tinha sido o ponto de partida de uma noite tão agitada.

Depois da aparatosa queda, o bichinho, completamente preto, nunca mais saiu de perto de Nuno. “É incrível! A gata esteve sempre em cima dele o tempo todo! Por vezes, o Nuno tentava afastar um pouco a gata, mas ela sempre voltava. Até achei estranho, porque, aparentemente, era vadia, mas, ao mesmo tempo, bastante afável. Parece que foi ela que adotou o Nuno como dono”, lembra Hugo.

A cumplicidade entre os dois foi tão forte que, quando as equipas de resgate de Queluz e Almoçageme chegaram, estabilizaram toda a estrutura do poço e conseguiram salvar, em primeiro lugar, o Nuno, o bombeiro trouxe ao colo a gatinha para nunca mais a largar: Kika acabou mesmo por ser adotada pelo operacional.

No entanto, os momentos do resgate também foram sinónimo de apreensão: é que, quando a primeira equipa chegou para iniciar o salvamento, mais um bocado da plataforma acabou por cair para dentro do poço, mesmo em cima da perna do chefe Jorge.

Passados uns breves minutos, Jorge finalmente saiu do poço: devido à gravidade dos ferimentos, as equipas de resgate tiveram de recorrer a uma maca. Hugo, juntamente com o comandante da corporação de Queluz, que, entretanto, desceu o poço, ajudou a colocar o chefe nessa cama.

 

“Não conseguia viver sem ser bombeiro”

 

Desengane-se quem julga que Hugo, quando finalmente saiu do poço, respirou de alívio. Preocupado com o estado de saúde dos seus amigos, o bombeiro quis saber como se encontravam Nuno e Jorge, fora daquela escuridão.

Mais tarde, após exames médicos, concluiu-se que Nuno tinha sofrido um traumatismo craniano e fraturas no ombro e no joelho.

Já Jorge contava com muitas mais fraturas. A lesão mais séria foi no calcanhar, o que lhe impossibilitou a continuidade do trabalho como bombeiro: neste momento, o chefe exerce funções na central do quartel.   

Que se desenganem aqueles que também julgam que Hugo teve o merecido descanso do guerreiro após uma missão tão arriscada. Depois de tanta agitação, o bombeiro apenas conseguiu dormir umas duas horas, mas, pelo menos, não teve de ir trabalhar: afinal, de manhã, ainda sentia muitas dores em todo o corpo e o seu patrão foi compreensivo com tudo o que tinha acontecido umas horas antes.

Foi um momento de pausa numa vida agitada, dividida entre esta atividade voluntária e a sua profissão – motorista num centro de abate de viaturas: “Pode parecer uma rotina um pouco cansativa, mas eu não conseguia viver sem ser bombeiro. Foi sempre aquilo que quis fazer na vida. Sabe quando os pais nos perguntam o que nós queremos ser quando formos grandes? A minha resposta sempre foi uma: bombeiro. Não sei porquê, mas sempre quis seguir este caminho”.

Contudo, foi a necessidade económica que fez com que Hugo não tivesse seguido a via profissional: “Infelizmente, ser bombeiro profissional é um pouco ingrato. Não se ganha o suficiente para sustentar uma família”.

Ingrata também é a impossibilidade de os bombeiros salvarem todas as vidas que passam pelas suas mãos: “Essas são algumas das missões que acabam por nos marcar mais. Principalmente, quando envolvem crianças. Por exemplo, houve uma situação que afetou bastante a nossa corporação, um caso de um afogamento de um bebé de 6 meses. Fizemos tudo o que podíamos, mas não fomos capazes de salvar essa vida”.

Como forma de reconhecimento de todo o trabalho incansável destes “soldados da paz”, de que Hugo é apenas um dos muitos representantes, o Grupo Mosqueteiros (que detém os supermercados Intermarché, Bricomarché e Roady), em parceria com a Liga dos Bombeiros Portugueses, lançou o livro infantil “Bombeiro dos Pés à Cabeça”, cujas receitas revertem para a compra de equipamentos.

Com prefácio da apresentadora Isabel Silva, que, juntamente com Manuel Luís Goucha, é a embaixadora desta campanha, o livro conta a história de Rita, uma menina que sonha em ser bombeira, seguindo os passos dos seus irmão, pai e avô.

Bombeiro dos pés à cabeça” custa 1.99 euros e está à venda nos espaços Intermarché, Bricomarché e Roady até ao próximo dia 31.