Rejeita haver um complô, mas considera que todo o caso criado em torno da contratação de Durão Barroso pelo banco Goldman Sachs Internacional (GSI) prejudica a candidatura de António Guterres à ONU. Para o eurodeputado Paulo Rangel, há, pelo menos coincidências.

Há um aspeto que me preocupa", disse Paulo Rangel, referindo-se à "coincidência de datas" com a promoção da candidatura, pela Comissão Europeia, da búlgara Kristalina Georgieva, a secretária-geral da ONU. Precisamente o cargo a que o ex-primeiro ministro português António Guterres também concorre.

Em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, Paulo Rangel mostrou desconfiança face ao apoio público manifestado pelo chefe de gabinete de Jean-Claude Juncker a uma eventual candidatura da búlgara Georgieva. Porque coincide com a tentativa de "enfraquecer uma candidatura portuguesa [à ONU], que é neste momento a mais forte".

Tomou a iniciativa de encorajar uma candidatura da senhora Georgieva e na mesma semana existe a tentativa de procurar apoucar a imagem de um português que teve, até agora, o cargo internacional mais relevante nas vésperas de outro português ter outro", considerou Rangel.

Quanto ao caso em concreto, que envolve Durão Barroso e a sua contratação pelo Goldman Sachs, Paulo Rangel admite alterações das regras, mas considera exagerada a polémica.

Podemos não concordar com os regulamentos e mudá-los, mas não aplicar regras retroativas. Há aqui uma total discriminação, um tratamento diferenciado que é inaceitável", salientou, considerando haver da parte de Juncker face a Barroso, uma "discriminação negativa"

Já vimos episódios destes com Mário Monti, com Romano Prodi, com Nellie Kroes e com tantos outros e que após um período de nojo foram para atividades privadas e, nalguns casos, na mesma empresa em que está Durão Barroso e não houve nenhuma destas reações", referiu.

Alterar as regras

Para a eurodeputada do Bloco de Esquerda não há volta a dar. Marisa Matias quer a alteração do código de conduta dos antigos comissários europeus, considerando que uma situação como a contratação de Durão Barroso pelo banco Goldman Sachs Internacional (GSI) devia ser proibida.

Configura uma total incompatibilidade e que nem deveria sequer ser permitida no código de conduta. O que é fundamental é mudar o código de conduta e impedir que estas situações voltem a acontecer", salientou Marisa Matias, citada pela Agência LUSA.

Sei que é legal, mas nem tudo o que é legal é moral ou é ético - e neste caso é profundamente imoral - temos que acabar com as 'portas giratórias' de uma vez por todas", referiu a eurodeputada.

Para a eurodeputada, o atual presidente da Comissão Europeia também teve uma atuação pouco recomendável, já que Juncker reagiu tardiamente e apenas sob pressão e se limitou a confirmar "uma verdade que todos sabíamos: que Durão Barroso é lobista".

Princípio da transparência

Também em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, o eurodeputado Nuno Melo eleito pelo CDS-PP considerou que a decisão de Jean-Claude Juncker de inscrever Durão Barroso na lista de lobistas se justifica com a aplicação do princípio da transparência, para precaver conflitos de interesses.

Factos são factos: não houve intenção de apoucar mas sim de precaver uma situação de eventuais conflitos de interesses que pudesse ser mais tarde invocados como relevantes para o normal jogo político", sublinhou o eurodeputado.

Para Nuno Melo, a questão reveste-se de uma total clareza.

Não tem que ver com o relacionamento entre a Comissão Europeia e um antigo presidente da Comissão Europeia, antes sim, da Comissão Europeia com alguém que atualmente desempenha funções no Goldman Sachs". Considero justificada, no contexto, a declaração do presidente Juncker, tendo em conta que se trata de Bruxelas, onde o 'lobbying ' é uma atividade altamente regulamentada, que abrange todos os aspetos da vida, dos quais a economia e as finanças não são exceção", salientou.

O deputado do Parlamento Europeu referiu ainda que "tendo em conta a importância da Goldman Sachs, a atividade a que se dedica, a incidência em relação a todos os países, o papel que ocupou na recente gestão da crise das dívidas soberanas, parece-me razoável que o presidente da Comissão Europeia tenha essa preocupação".

Juncker e a resposta de Barroso

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou que vai examinar o contrato do seu antecessor com o GSI e deu já instruções ao seu gabinete para tratar Durão Barroso como qualquer outro lobista com ligações a Bruxelas. Uma petição de cidadãos cresce em apoios, exigindo medidas exemplares de Bruxelas contra o português.

Entretanto, numa carta publicada pela imprensa internacional, o ex-presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro português respondeu, considerando que as suspeitas "são infundadas e totalmente imerecidas", além de "discriminatórias contra mim e contra a Goldman Sachs".

Já a decisão de Juncker de pedir explicações sobre o novo contrato de Durão Barroso surge na sequência da posição da provedora de justiça europeia, Emily O'Reilly. Na semana passada pediu esclarecimentos sobre a posição da Comissão Europeia face à nomeação do antecessor de Juncker para administrador não-executivo na GSI, sendo ainda consultor da empresa para o Brexit britânico.