É num pequeno anexo, recheado de objetos em segunda mão, que a magia acontece. É aqui que brinquedos de criança se transformam em instrumentos de gente crescida, é aqui que velhas malas de viagem ganham um novo propósito sem ser o de acumularem pó. Música feita de camada em camada, pela mão de um só homem - David Santos, que nesta caixa musical mágica é mais conhecido como Noiserv.

Foi na adolescência, aos 18, 19 anos, que começou «a ganhar um gosto enorme por tudo o que era teclados, tudo aquilo que tinha teclas brancas e pretas». O fascínio visual empurrou a curiosidade, que o levou a lojas de instrumentos usados.

«Claramente, que os teclados mais pequenos eram os mais baratos. Depois de começar a comprar um ou dois, e a experimentar os sons, comecei a perceber que cada um deles tinha sons que, se calhar, não eram tão comuns na música, como o som dos cães, o som do mar, o som de uma série de coisas que eu depois, mais tarde, acabei por inserir nas músicas», recordou Noiserv em entrevista ao tvi24.pt.

Como one man band no estúdio e no palco, Noiserv acredita que não existem limites para o que possa ser transformado em música. Desde mini-pianos a pistolas de brincar, passando por fechos de malas e máquinas fotográficas.

«Quase tudo o que eu tenho aqui pode ser usado, desde que, sonoramente, me faça sentido. Cheguei a um ponto em que não há, realmente, um limite para aquilo que posso usar, porque tudo o que faça som pode ser musical, desde que posto no sítio certo e na altura certa. E foi isso que fui descobrindo ao longo dos anos», explicou.

«Se vejo uma caixa ou um tupperware, antes de tudo mais, eu vou lá abrir e fechar a tampa para ver que barulho é que aquilo faz. Não objetivamente a pensar numa música, mas acaba por ser um vício perceber, sonoramente, o que é que todas as coisas fazem.»

Ainda assim, e no meio de tantos sons menos convencionais resgatados da banalidade, há um instrumento especial de onde partem as bases e as primeiras camadas para as canções de Noiserv.

«De todos estes [instrumentos], a guitarra é capaz de ser um dos mais antigos. E, embora não seja uma guitarra topo de gama, acabo por estar muito ligado a ela sentimentalmente. Sempre estive eu e a guitarra em tudo o que fiz. Já fiz concertos com mais e com menos instrumentos, mas a guitarra esteve lá sempre», contou sobre o instrumento que o acompanha há cerca de 15 anos.

O novo disco, o segundo longa duração, dá pelo nome de «Almost Visible Orchestra», ou não estivéssemos a falar do trabalho de um músico que se desdobra numa autêntica orquestra. E também como um maestro atento a cada pequeno detalhe, David Santos quis que a caixa do CD fosse especial - um puzzle, que surge também como metáfora para aquele que é o seu disco «mais denso e complexo».

«Os discos anteriores acabam por ser compilações de músicas que eu ia terminando - tinha dez músicas, fazia um disco. Este foi exatamente o contrário: antes de ter uma música terminada, tinha os rascunhos de todas as músicas. E percebi que tinha, à partida, quase que um puzzle desmanchado, como se cada música pequenina fosse uma peça.»

Num álbum construído como um puzzle, também o título funciona com um quebra-cabeças, formando a sigla para uma dedicatória especial: «A.V.Ó.»

«Esta criação final do disco vem toda muito num processo da morte da minha avó. E, desde esse período, eu sabia que, à partida, estas músicas estariam todas muito envolvidas com isso. Não que falassem concretamente disso, mas as músicas vivem todas muito dos meus estados de espírito, e durante este ano e meio, dois anos, isso esteve muito presente na minha cabeça», revelou David.

Com «Almost Visible Orchestra» lançado esta semana nas lojas, Noiserv dedicará o resto do ano aos concertos de apresentação do disco (o próximo é já no sábado, em Coimbra), enquanto que a banda que também integra, os You Can't Win Charlie Brown, ultima os preparativos para a edição de um novo álbum.