O Syriza exclui uma saída da Grécia do euro porque isso conduziria à rutura da zona euro e a mais austeridade, precisamente o que o partido grego quer combater se vencer as eleições de 25 de janeiro.

Yannis Miliós, um dos quatro economistas responsáveis pelo programa económico do partido de esquerda grego, recusou em entrevista à agência espanhola EFE a ideia transmitida pelo governo conservador de Antonis Samaras de que o Syriza tem uma «agenda oculta» de que faz parte uma saída do euro.

«Não é possível sair do euro sem quebrar a zona euro por completo. Seria passar de um sistema de moeda única para um de taxas de câmbio fixo, como tivemos na década de noventa», explicou, citado pela Lusa.

«Somos contra a depreciação das condições de vida da maioria das pessoas e uma depreciação monetária seria equivalente a aplicar um plano de austeridade», acrescentou.

Sobre a renegociação da dívida, um dos «cavalos de batalha» do partido liderado por Alexis Tsipras, Miliós explicou que existem múltiplos instrumentos técnicos para o fazer.

A ideia do Syriza, disse, é a de uma moratória do pagamento da dívida para todos os países, com juros nulos e um prazo de pagamento que se prolongaria por cerca de quatro décadas, até que as respetivas dívidas tivessem baixado para 20% do Produto Interno Bruto (PIB).

O Banco Central Europeu (BCE) trocaria os juros da dívida de todos os países por obrigações de cupão zero, ou seja, que não pagam juros até ao pagamento integral. Segundo Miliós, uma operação destas custaria apenas 1,3 milhões de euros, porque o BCE não trocaria a dívida mas apenas os juros.

Entre as reformas fundamentais que um governo Syriza aplicaria, o economista, catedrático de Economia na Universidade Politécnica de Atenas, destacou o regime fiscal e a administração pública.

«Temos previsto, por exemplo, reduzir o número de Ministérios de 18 para 10 e introduzir um setor público regido por critérios de eficácia», disse, sublinhando que, na Grécia, «não há funcionários a mais, estão é mal distribuídos» e dando como exemplo a falta de funcionários na inspeção fiscal.

O programa económico do Syriza, batizado «Programa de Salónica», assenta, explicou, em três pilares - «a luta contra a crise humanitária», «o relançamento da economia e a estabilização do mercado» e «a reforma do Estado» – e tem um custo total de 12 mil milhões de euros.

O primeiro pilar, com um custo avaliado em 2 mil milhões, contempla o fornecimento gratuito de eletricidade a 300.000 casas de famílias desfavorecidas, a emissão de vales de alimentação e títulos de transporte público para os mais pobres e o restabelecimento do 13.º mês para todos os pensionistas que recebem menos de 700 euros por mês.

O programa laboral, acrescentou, inclui o restabelecimento do salário mínimo de 750 euros vigente há quatro anos (atualmente é de 586 euros) e a criação de um banco de investimento para resolver o problema das dívidas ao fisco e à segurança social acumuladas pelas pequenas e médias empresas.

Quanto à dívida privada, o objetivo é possibilitar acordos extrajudiciais que permitam a cada devedor pagar um máximo correspondente a 30% do respetivo rendimento e congelar a restante dívida até que esteja em condições de a saldar.

«Com este tipo de acordos esperamos recuperar 20 mil milhões de euros em sete anos, 3 mil milhões no primeiro ano», explicou Miliós, sublinhando que o objetivo é «não produzir défice».

Segundo o economista, os 12 mil milhões necessários à aplicação do programa económico poderiam ser financiados através da evasão fiscal recuperada (3 mil milhões), a recuperação de dívidas de cobrança duvidosa (3 mil milhões), o fundo de estabilidade financeira grego (3 mil milhões) e os fundos de coesão europeus (1,7 mil milhões). Os restantes 1,3 mil milhões poderiam ser negociados com os parceiros europeus.