A Ryanair informou, nesta quarta-feira, que "apenas oito de entre os primeiros voos do dia foram cancelados", de um total de 170, salientando que a maioria dos tripulantes de cabine portugueses estão a trabalhar "dentro da normalidade".

Em comunicado, a operadora aérea irlandesa indica que "a grande maioria dos tripulantes de cabine em Portugal estão hoje a trabalhar dentro da normalidade", acrescentando que "apenas oito de entre os primeiros voos do dia foram cancelados (de um total de 170 voos de/para Portugal), sendo que estes clientes já estão a ser recolocados em outros voos ao longo do dia de hoje ou voos extra" que serão operados na quinta-feira.

A paralisação foi marcada pelo Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), que tem denunciado a substituição ilegal de grevistas por trabalhadores de bases estrangeiras, o que levou a Autoridade para as Condições do Trabalho a anunciar uma inspeção.

A greve de três dias (não consecutivos) visa exigir que a transportadora de baixo custo irlandesa aplique a legislação nacional, nomeadamente em termos de gozo da licença de parentalidade, garantia de ordenado mínimo e a retirada de processos disciplinares por motivo de baixas médicas ou vendas a bordo abaixo das metas da empresa.

A Ryanair fez um grande esforço durante este período para manter os voos e férias de Páscoa dos […] clientes e respetivas famílias e, graças aos […] tripulantes de cabine portugueses, que em grande parte ignoraram esta greve convocada por sindicatos de companhias aéreas concorrentes, estes esforços tiveram sucesso tanto na semana passada como hoje", defende a operadora de baixo custo.

Hoje, num primeiro balanço, a presidente do SNPVAC, Luciana Passo, deu nota de 12 cancelamentos em 25 saídas previstas, mas também de partidas de aeronaves sem passageiros para irem recolher tripulação.

Na terça-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, advertiu a Ryanair para cumprir a legislação laboral portuguesa, considerando que esta não pode substituir trabalhadores em greve por outros funcionários.

No mesmo dia, o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, afirmou que “o Governo pode fazer o que pode fazer sempre nestas situações – quando há indícios de que está a ser posto em causa um direito fundamental –, que é utilizar e mobilizar os instrumentos que a lei dispõe, seja contraordenacionais, seja punitivos, se for caso disso”.

Sindicato admite greve à escala europeia

O sindicato que convocou a greve de tripulantes de cabine da Ryanair admitiu hoje a realização de uma greve à escala europeia caso a empresa irlandesa não aplique a lei nacional aos trabalhadores das bases da companhia em Portugal.

Se a Ryanair não mudar essa atitude, a única alternativa que nós temos é trabalhar no sentido de pegar no exemplo português e replicá-lo numa greve à escala europeia e para tal também iremos, após o balanço desta greve, sentar-nos à mesa e convidar os sindicatos europeus para uma reunião onde será esse o único tema discutido", disse à Lusa Fernando Gandra.

O dirigente sindical, que falava à margem de uma conferência de imprensa, em Faro, onde estiveram presentes representantes do sindicato homólogo em Itália, sublinhou que o pessoal de cabine é alvo de "bullying constante" por parte da empresa, existindo "vários exemplos de intimidação e de assédio moral".

Convocada pelo Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), esta greve, que hoje termina, após três dias não consecutivos, reivindica a aplicação da lei nacional aos trabalhadores das bases da companhia em Portugal, nomeadamente quanto a baixas médicas e de parentalidade.

Segundo Fernando Gandra, o problema "é transversal" e a presença dos sindicatos europeus em Portugal "é também demonstrativo de que no seu país os problemas são iguais e os tripulantes sofrem das mesmas condições de trabalho", referiu, sublinhando esperar que a Ryanair "aprenda uma lição" com os trabalhadores portugueses.

O dirigente sindical enalteceu o gesto de "grande coragem" dos tripulantes de cabine em Portugal, já que, em mais de 30 anos, é concretizada pela primeira vez na empresa uma greve, com aqueles profissionais a darem o primeiro passo.

Segundo aquele responsável, durante os três dias de greve a empresa demonstrou a sua "verdadeira essência", havendo "provas inequívocas da prática de bullying e de assédio moral permanente" aos seus trabalhadores.

O dirigente sindical deu o exemplo de pessoas que quiseram recusar-se a efetuar voos fora de base para cobrir a greve e que foram ameaçados "com despedimentos, processos disciplinares e violações graves dos seus contratos de trabalho".

O sindicalista deu ainda o exemplo dos trabalhadores que não conseguem atingir os objetivos de venda de produtos a bordo e que são "ameaçados, intimidados, porque podem ir parar a uma base no estrangeiro, contra a sua vontade".