O emprego total deve cair mais que o esperado pelo Governo no Orçamento do Estado para 2014, estima a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO), numa análise à proposta de Orçamento para 2014.

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Na análise a que a agência Lusa teve acesso, enviada na noite de terça-feira aos deputados, os técnicos independentes defendem, com base nos últimos anos, que as taxas de desemprego mais altas levam a uma queda mais acentuada da população ativa.

«Dada a projeção de uma diminuição de 0,4% no emprego total, estima-se que a população ativa diminua residualmente (perto de zero). Contudo, a evidência empírica dos últimos anos sugere que para taxas de desemprego mais elevadas existe uma queda acentuada da população ativa. Perante a persistência desta relação, em 2014 poderá registar-se uma mais acentuada redução da população ativa, o que significa que, para a taxa de desemprego projetada, a evidência sugere uma maior queda do emprego total», explica a UTAO.

Os técnicos põem também em causa algumas das projeções que compõem o cenário macroeconómico apresentado pelo Governo, e que podem assim ter influência no crescimento de 0,8% do PIB que o executivo espera para 2014 e consequentemente apuramento da meta do défice orçamental acordada com a troika.

Um destes indicadores é o investimento. A UTAO salienta que este já tem sido revisto em baixa e alerta que os valores inscritos no Orçamento para o investimento partem do principio que existirá uma expansão do crédito concedido pelos bancos, tal como em 2010, mas os técnicos acreditam que este é um risco, numa altura em que a concessão de crédito continua em contração.

«Para 2014, a variação do investimento prevista no atual cenário é compatível com períodos de expansão do crédito concedido (como é o caso de 2010). A persistência de uma trajetória de contração no crédito concedido apresenta-se como um risco para a evolução do investimento», dizem os técnicos, no relatório.

A UTAO alerta ainda que o Governo espera uma melhoria no défice da balança de bens (entre exportações e importações de bens) apesar de um menor crescimento esperado nas exportações e um aumento das importações.

A explicação que os técnicos encontram para esta aparente contradição nas contas do Governo acaba por ser uma possível variação no preço da balança, que deve contar com uma diminuição no preço dos bens importados, a compensar a variação de volume.

«A previsão para o défice da balança de bens é de uma melhoria, contribuindo para o aumento substancial previsto na capacidade líquida de financiamento da economia portuguesa face ao exterior. Tendo em conta que o saldo da balança de bens é expresso em valores nominais, esta aparente contradição entre a diminuição do contributo positivo das exportações líquidas e a melhoria do saldo da balança de bens poderá encontrar justificação na diminuição do preço relativo das importações de bens», justificam os técnicos.