Três filhos, uma rapariga com 16 anos e dois rapazes, com 14 e apenas seis. Gina, a mãe. Veio da Guiné para Portugal há 18 anos. Trabalha desde o verão na lavandaria de um complexo turístico de Oeiras. Este é o primeiro mês em que vai receber mais 20 euros brutos, 17,8€ líquidos, do que até aqui, com a subida do salário mínimo de 485 para 505 euros já no ordenado de outubro. Este é, também, o último mês em que isso acontece, pelo menos nos próximos tempos, porque já recebeu a carta de demissão. Esqueceu-se de o mencionar ao longo da entrevista. Já o gravador estava desligado, quando se lembrou de contar o pior. Habituada a saltar de um lado para o outro, Gina sorri sempre, acena às colegas com a boa disposição de sempre, como se em novembro ainda fosse fazer parte. Não vai. Não há plano B. Ou melhor, há, continuar a fazer pão entre as 7:00 e as 9:00, como até aqui, em part-time. «Sobrevivi. Estou a sobreviver».

Sobreviveu sempre. Tem 47 anos. Esteve desempregada durante quase três anos. Ia fazendo cursos do centro de emprego, limpezas, o que aparecia. Esteve anos para concluir a carta de condução, por vários contratempos. Entre eles, claro, a falta de dinheiro. Vive em casa do ex-companheiro, com os filhos e as más recordações, porque não tem para onde ir, não tem como pagar a renda. «Se tivesse de pagar, era mesmo impossível ou os miúdos ficavam bandidos. É nesse aspeto que dou graças a Deus». Porque, assim, consegue fazer das tripas coração para pagar o centro de estudos e evitar que eles andem pelas ruas do Cacém com más companhias. Abdicou de reconstruir a sua vida amorosa, a pensar num teto para os seus «miúdos», como carinhosamente lhes chama. O pai paga, apenas e só, a casa. «Dá comida, de vez em quando».

«Às vezes fico sem nenhum tostão»

Perguntamos-lhe como consegue viver com o salário mínimo e três filhos em idade escolar. Gina sabe o que é viver sem ele, também. Por isso, podia ser ainda pior. «Vou-me virando, às vezes consigo umas horas, em limpezas, mais o abono deles (35€/mês por cada filho). Vou desenrascando aqui e ali. Às vezes fico sem nenhum tostão». 

Só no centro de estudos dos filhos, gasta à volta de 350 euros. A pergunta óbvia: como gerir o dinheiro que resta (240€ já com os abonos de família). Só o pequeno-almoço e o jantar é que são em casa. Como os miúdos têm escalão A, na escola, comem de graça e ela come no trabalho. O passe social dela fica em 50,55€. «Quem não tem direito paga 67,65€», lembra. Gina sabe sempre, de cor, o custo das coisas. Ao cêntimo. 

«Já faltou comida, já» 


Faz uma ginástica incrível nas compras semanais. O lema é simples: «Onde vejo promoções, vou atrás». E em quantidades industriais. Para além das marcas brancas, há outras que, quando estão em promoção, também saem em conta: «Ainda no mês passado, tinha ido a Algés, e ao passar pelo continente vi que as latas de Nesquik grandes de 800 gr, que custavam 5 euros e tal, estavam a três euros cada. Trouxe logo 10. Os miúdos já acabaram duas e ainda nem fez três semanas», conta. E lá foi ela, a mãe Gina, a carregar 10 caixas de chocolate em pó, a pé e autocarro fora, até ao Cacém. O leite é sempre Mimosa, porque é aquele que os filhos gostam. Gasta 30, 50, às vezes 100 euros por semana nas compras para casa. «Depende do que falta. Água, da torneira. Carne, só frango e perú, não só por ser mais barata, mas porque faz melhor à saúde. Peixe, comprava diretamente na doca de Algés, mas já não há e, por isso, quando compra, é logo congelado e para dois ou três meses, quando consegue canalizar 100 ou 150 euros só para isso. Sopa, sim, há todos os dias.

«Tenho de jogar com a minha economia, chega uma altura em que fico sem nenhum tostão», insiste.« Já aconteceu faltar comida, já. Mas faço questão de estar atenta para não faltar nada de essencial. Ontem mesmo não entrei na despensa. O meu filho pequenino ligou-me a perguntar: ‘Oh mãe, não há nada para comer? Não há papa, a papa acabou e não quero bolacha torrada, nem há bolacha Maria’. Eu tinha 10 euros na carteira e antes de voltar para casa fui comprar. Felizmente, não tenho vícios, não bebo, não fumo, nem tomo café. Gosto sempre de ter uma nota de 10 euros para casos como o de ontem. Não é fácil, não é fácil, não é fácil», repetiu, sempre entre sorrisos genuínos. 

A roupa é quase sempre oferecida, mas a filha adolescente já começa a exigir outras coisas. Setembro foi um mês difícil com a aquisição do material escolar. Gastou 525 euros em livros. Não tinha fundo de maneio do subsídio de férias, que não chegou a receber porque só trabalhou três meses na lavandaria. Recebeu mais abono e vão reembolsar-lhe parte dos gastos mais para a frente. Mas teve de ter dinheiro na mão, fosse como fosse, para comprar. Este foi, também, o ano de mochilas novas para os três. Mais 160€, a pensar numa coisa que dure. «Gosto de comprar mochilas boas para durarem logo uns três anos e o ano passado foi muito chuvoso. Este ano letivo teve de ser». Mais 250€ no restante material escolar (85€ só para o «pequenino», porque entrou no 1º ano). Não é difícil fazer as contas: gastou mais do que o ordenado mínimo velho e novo juntos, líquidos, só para os estudos dos filhos. 

«Vivo no limite, todos os meses, todos os meses»

Vinte euros a mais no final deste mês – e se vier a arranjar outro trabalho a ganhar o mesmo – dão, afinal, para mais o quê? «Concordo com o aumento, mas é pouco. E os 505 euros não são líquidos, são brutos. Quem não sabe gerir, não vai conseguir. E quem sabe, vai bater na mesma tecla. Se der para poupar tudo bem, mas não acredito muito. Há uns anos, eu tinha poupado o abono deles, mas há sete ou oito anos que não sei o que é a poupança. Vivo no limite todos os meses. Todos os meses».

Não faz, nem pode, nem lhe passa pela cabeça entrar em qualquer tipo de aventuras ou pedir empréstimos. O mais importante, para Gina, é que os filhos completem os estudos e entrem na faculdade. Se precisarem de emigrar outra vez, fá-lo-ão. «Lá fora já dão ajuda a quem quer estudar». «O Estado (português) não faz nada pelos miúdos. Noutros países, não interessa o escalão, dão apoio a quem quer estudar».
Não tem dúvidas de quanto devia ser o ordenado mínimo em Portugal, para quem tem filhos a cargo: «1.000 euros, no mínimo». Sabe, também de cor, o valor dos ordenados noutros países europeus. 

Graças aos pais, a vida não deu uma volta de 360º

O caso de Ana, 30 anos, é diferente, pelas habilitações, pela relação familiar. Mas é mãe na mesma, psicóloga de formação. «Com habilitações a mais», dizem-lhe. Mais um caso de um licenciado a trabalhar num call center. Sabe o que é viver de forma confortável. Fê-lo quando exercia a sua profissão. Sabe o que é a vida dar uma volta de, pelo menos, 180º. «Fiquei desempregada ainda grávida e recomecei a trabalhar já a pequenota tinha 9 meses». Vivia em Viseu, com o marido e com os sogros, mas arranjou trabalho em Coimbra. 

Exemplos concretos do que fazia antes e agora não pode fazer: «Uma vez por semana, saíamos e íamos jantar fora. É raríssimo agora e, quando acontece, vamos com a família e são os nossos pais que pagam a despesa final. Deixámos de comprar roupa de melhor qualidade mesmo para a Ana (a filha)». Como está a crescer, o desgaste da roupa também é mais rápido. 

«
Se fosse só o meu rendimento jamais conseguiria neste momento ter capacidade para viver. Não conseguiria nunca gerir a despesa de creche (a filha não conseguiu entrar numa pública; está numa IPSS, com o valor mensal a ser calculado com base no IRS dos pais), água, luz, gás, deslocações. Muito menos ainda pensar na prestação de uma casa». Tem o marido, que é comercial. Trabalha à comissão. «Só ganha quando o que está a vender é pago pelo cliente. Há meses em que estamos mais confortáveis, e meses em que estamos aflitos», confessa. Valha a família, a quem recorrem com frequência. Podia ser pior, sim. 

No final de outubro, terá mais 20 euros na carteira. «A nível mensal não se vai notar. Notar-se-ia se acumularmos esse dinheiro e, números redondos, ao final do ano são 240 euros. Conseguiria dar conta de um seguro sem ter de ir buscar ao subsídio de férias ou de natal, por exemplo». Ana sempre a olhar para o lado positivo. 

E com uma visão muito prática das contas, é-lhe fácil fazer uma estimativa sobre quanto devia ser o salário mínimo em Portugal. «Pondo a qualificação académica de parte, para qualquer cidadão normal e, principalmente com filhos (o ordenado devia ter isso em conta, e não só regalias de baixa de cinco dias de assistência à família), o ideal, perfeito e obviamente sem pensar em viagens e afins, seriam 650 a 700 euros líquidos, enquanto família. Um rendimento mínimo fixo de 1.200 euros por casal». O que sobra «não dá para ter uma excelente qualidade de vida, mas daria para equilibrar melhor do que agora».

Preocupação q.b. aos 18 

«Para mim dá-me para tudo, porque vivo com os meus pais. São eles que pagam tudo, por isso, para as minhas coisas, basicamente o salário mínimo dá para tudo». Débora, 18 anos, trabalha numa imobiliária do Cacém. 

Por agora, não está a estudar, apenas concentrada no trabalho. Os pais pagam as contas e a comida. O que recebe é para o que precisa para ela. Vai ganhar mais 20 euros, mas não tem uma ideia de como canalizar esse dinheiro para uma finalidade específica. Consegue poupar, porque tem os pais e vive com eles. «Mas, se calhar, para as pessoas que têm família para sustentar, faz diferença. Acho que um chefe de família não tem de ganhar o ordenado mínimo nacional, com rendas para pagar e tudo o resto. Devia ser, no mínimo dos mínimos, 700 euros». Para cada um dos membros do casal, realça.

Ambiciona, um dia, viver sozinha, mas sabe que se ganhar sempre, e só, o salário mínimo nacional será muito difícil pagar despesas, será muito difícil «construir casa». «Ou vives muito mal, para conseguires, ou é um bocadinho impossível».

Voltemos a Gina, a mãe do sorriso aberto. Em poucas palavras, o lema de vida que a tem ajudado a sobreviver: «Haja saúde, o resto vem». Esperando, primeiro que tudo, um trabalho mais fixo. E, depois, pelo menos, o ordenado mínimo. Por mínimo que seja.