O ex-presidente do BES criticou a auditoria da Deloitte, encomendada pelo Banco de Portugal, que lhe aponta 21 desobediências a esta entidade nos últimos meses do banco, considerando que se baseou «exclusivamente» nas informações do BdP. Aliás, Ricardo Salgado anunciou mesmo que iniciou, em fevereiro, uma ação de «incidente de suspeição» sobre o governador, Carlos Costa, acusando-o de «manifesta falta de isenção».

Segundo Salgado, o próprio relatório da auditoria «reconhece que as informações são insuficientes», que há «falta de prova e de informação relevante» e que houve «limitações», sendo prova disso as «páginas em branco» no final do documento.
 

«A auditora baseou-se exclusivamente nas informações que obteve junto do Banco de Portugal e do Novo Banco, leia-se Banco de Portugal. Não houve preocupação de confirmar a informação junto de terceiros».


Salgado acha «inadmissível» que o Banco de Portugal «ande a divulgar o relatório, gota a gota, através da imprensa», mostrando uma «pré-decisão» de o culpar. Aliás, o ex-presidente do BES queixa-se mesmo de um «julgamento rápido e sumário» na opinião pública sobre as suas responsabilidades no colapso do banco e do grupo.

Continuando no tom crítico à atuação do Banco de Portugal, Ricardo Salgado sublinhou que as «potenciais desobediências estão por demonstrar», recordando que, já a 3 de agosto, quando Carlos Costa anunciou o fim do BES e a criação do Novo Banco, já o governador tinha concluído que tinham ocorrido «esquemas fraudulentos».

Voltando à auditoria, Ricardo Salgado disse viver «bem» com a suspeita de ter reembolsado clientes particulares e assegurou que a conta escrow serviu «exclusivamente para reembolsar clientes» e não para conceder novos financiamentos. O Banco de Portugal é que nunca deixou de ser o principal alvo de críticas, nomeadamente nas medidas tomadas para tentar proteger o banco da exposição ao GES.
 

«O ring-fencing cego prejudicou o BES em vez de o proteger (...) A única questão em que estive envolvido diretamente foi nas cartas de conforto [à Venezuela]. Mas aí não existe qualquer prejuízo ou dano patrimonial».


Sobre a segunda parte do relatório, dedicada ao BESA, que também estabelece ligações entre o dinheiro que se perdeu em Angola e «entidades ligadas aos responsáveis do BES e do GES», Salgado criticou que esta seja «inacreditavelmente baseada em notícias», sublinhando mais uma vez a «falta de prova». Assim sendo, sem «rigor», o ex-presidente do BES afirmou ser «impossível» exercer o seu «contraditório» com rigor.
 

«Estou privado dos meios de defesa dados a qualquer cidadão num Estado de Direito».


«Lamento profundamente…»

Desta vez, o ex-presidente do BES não pediu desculpa aos afetados pelo colapso do banco, mas quase.
 

«Lamento profundamente todos os que foram prejudicados. Nunca esquecerei os clientes, colaboradores ou acionistas que em nós confiaram».


Ricardo Salgado garantiu que, ao contrário de outros responsáveis, não irá «refugiar-se» na «ignorância dos factos». «Mas também não terei tudo a ver com tudo, como tem sido sugerido», acrescentou.

«Hoje, que perdi o que foi a minha vida de trabalho, só quero lutar pela minha honra e a da minha família. Explicando o que fiz, em contraditório, e com armas iguais. Os anos que me restam de vida serão passados nessa luta».