Basta olhar para um número para facilmente compreender a onda de choque provocada pela vitória do Brexit no referendo: 15%. É que é este o grande peso que o Reino Unido tem no PIB europeu, ou seja, na riqueza criada em toda a União Europeia. Daí o pessimismo em catadupa nos mercados, as reações políticas díspares - entre demissões e gritos de Ipiranga. Em suma, o medo do divisionismo, que logo começou a soar dentro de vários países e no vínculo europeu. É a primeira pedra na (des)união. Há uma estrela da bandeira que quer cair. 

O Reino Unido está por isso com um pé dentro e outro fora da UE (e, desde o início, este foi um casamento sem amor). Já o primeiro-ministro do país está com os dois pés fora do Governo. David Cameron anunciou a demissão por causa deste referendo que ele próprio prometeu ao povo, nas eleições.

David Cameron (Lusa/EPA)

O resultado é que não foi aquele que esperava: 51,9% dos britânicos votaram a favor da saída da União Europeia (um sentimento expresso em 17,41 milhões de votos), 48,1% votaram contra (16,14 milhões de votos). A votação contou com uma taxa de participação de 72,2%, mais do que aquilo que estamos habituados a ver em eleições. 

Reino (des)Unido

O Brexit ganhou, mas o país estava, está e continua claramente dividido. Só que é como no futebol, o número de golos é que contam. Quem canta vitória são os partidos da extrema-direita e eurocéticos. Antes mesmo de Cameron falar ao país, pelas 08:00, o líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), Nigel Farage, já tinha pedido a sua saída, a formação de um “Governo Brexit” para preparar a saída do país da União Europeia e antecipou que "este dia ficará na História como o dia da independência".

Nigel Farage (Lusa/EPA)

O primeiro-ministro britânico precisou que se manterá no cargo por mais três meses, já que o novo líder do Partido Conservador será escolhido no congresso previsto para outubro. As casas de apostas já só olham para Boris Johnson, ele que defende o Reino Unido fora da UE e que há muito apontado como seu sucessor. O mais forte candidato à sucessão de Cameron já veio dizer que não deve haver "pressa" em sair e que o país continuará a ser europeu, ainda que fora da União.

Num Reino (des)Unido, mais efeitos espectáveis: o partido Sinn Féin veio logo apregoar uma votação na Irlanda do Norte sobre a unificação com a República da Irlanda. Na Escócia, aprimeira-ministra, Nicola Sturgeon, faz finca-pé e quer que o futuro seja como “parte da União Europeia”. Na prática, admitiu um referendo à independência.

Contágio europeu (e não só)

A importância do Reino Unido, segunda maior economia europeia, dispensa explicações. Os efeitos do Brexit estão a surgir em catadupa, politicamente e nos mercados. 

Em França, enquanto o governo lamentou a decisão “triste” do Reino Unido e admitiu a necessidade de a Europa reconquistar a confiança das pessoas, a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, já quis tirar partido de toda esta situação.

Pede um referendo deste género no seu país e se ele não acontecer entretanto, encara as eleições presidenciais do próximo ano como um barómetro nesse sentido. Ora, é preciso não esquecer, França é a terceira maior economia europeia, a seguir à Alemanha e, precisamente, Reino Unido. Na Suécia, também já se fala em referendo.

Marine Le Pen (Reuters)

 

Já da Alemanha, Angela Merkel não esteve com rodeios e disse que o que está em causa é "um golpe para a Europa". Por isso, convocou os líderes dos partidos com representação parlamentar para analisar as possíveis consequências, instando os pares europeus a discutir o Brexit na próxima semana.

Será já hoje que os presidentes das principais instituições europeias se vão sentar à mesa para discutir a batata quente que têm em mãos. Para além dos presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, do Conselho Europeu, Donald Tusk, e do Parlamento Europeu, Martin Schulz, a reunião extraordinária de líderes europeus incluirá também Mark Rutte, primeiro-ministro holandês, por ser este o país que detém, até julho, a presidência rotativa da União Europeia.

António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa (Lusa)

Os governos de Espanha (onde há eleições este fim-de-semana) e Portugal estão com França no adjetivo uilizado para caracterizar esta situação: "Tristeza". O ministro das Finanças e o primeiro-ministro portugueses garantem que o país aguenta esta onda de choque, já que tem uma almofada financeira, ou seja, há dinheiro até meio de 2017. 

O Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, defendeu que os ideiais europeus devem ser "repensados e reforçados", prometendo defender os portugueses que vivem no Reino Unido.

Já a Rússia não se mete, considera que o resultado é um "assunto interno" do Reino Unido.  

Dos Estados Unidos, a previsível reação do candidato à Presidência Donald Trump: o Brexit permite ao povo britânico "recuperar o seu país". O atual presidente dos EUA, Barack Obama, demorou mais a reagir. Em comunicado, a Casa Branca expressou respeitar a decisão do povo britânico, mantendo a intenção de continuar as relações bilaterais entre Washington e Londres.

A candidata Hillary Clinton seguiu a mesma linha de discurso e defendeu que é preciso convergência nos passos a tomar desde já: "a primeira coisa que temos de fazer é certificarmo-nos que a incerteza económica não tem consequências nefastas para as famílias trabalhadoras".

A NATO, por sua vez, garante que a Aliança Atlântica não está em causa. Londres continua a ter um “papel de liderança”.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, garantiu a determinação dos líderes europeus “em manter a unidade a 27 e o líder do Parlamento Europeu, Martin Schulz, já advertiu para a necessidade de “estabilidade em tempos de turbulência”. 

Mercados em queda livre

Tubulência ou mesmo turbilhão é o que se vê nos mercados: bolsas, dívida, moedas, petróleo, todos estão a ressentir-se muito com o Brexit. Falar num sentimento de pânico não é excessivo. E foi logo desde o arranque das negociações. 

A libra caiu mais de 10%, a maior desvalorização de sempre, para o patamar mais baixo desde 1985, ou seja, em 31 anos, abaixo dos 1,35 dólares Quer isto dizer que os britânicos vão passar a pagar mais do que aquilo que importam e vão perder poder de compra. 

Os principais bancos em Londres chegaram a cair 30%, embora o principal índice bolsista, o FTSE tivesse registado, curiosamente, a menor desvalorização europeia no fecho de sessão. Mas foi, Europa fora, uma sexta-feira negra. Só Lisboa perdeu 3.400 milhões de euros. Até é uma bolsa sem grande expressão no bloco europeu, mas mesmo assim conseguiu deixar voar tanto dinheiro.

O Banco de Inglaterra tentou tranquilizar os investidores ao início da manhã, embora sem grande efeito, ao garantir que está pronto para injetar 250 mil milhões de libras esterlinas (326 mil milhões de euros) de fundos adicionais, se for necessário.

Na mesma linha, o Banco Central Europeu também garantiu liquidez para fazer face ao Brexit, tanto na emissão de moeda, como na libertação de divisas estrangeiras. 

A reação dos mercados ao Brexit (Reuters)

Os juros da dívida estão pressionados e em Portugal, considerado sempre um dos países mais frágeis, alvo de resgate financeiro no passado receira, chegaram mesmo a disparar.

A bolsa de Lisboa, fraca em termos de expressão europeia, tombou cerca de 8%, atingindo o valor mais baixo em 20 anos. Nem com o pedido de resgate e com a troika em Portugal aconteceu algo com esta dimensão.

Nas matérias primas, o barril de petróleo Brent caiu 6,5% e situou-se abaixo dos 47,50 dólares.

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