A recompra de obrigações com prejuízo por parte do Banco Espírtito Santo aconteceu e foi feita «à margem» dos órgãos competentes do banco. A confirmação foi dada esta terça-feira pelo antigo administrador do BES, António Souto, que imputou responsabilidades à Espírito Santo Financial Group (ESFG), a holding financeira do banco e sua maior acionista.

Sobre o ponto ‘operações financeiras subjacentes a produtos colocados na rede [papel comercial] e sua recompra com prejuízos, as perações efetuadas à margem dos órgãos competentes do banco. A ESFG não cumpriu as determinações do BdP como evidenciam os factos». Isso é da «exclusiva responsabilidade do seu conselho de administração»


Ricardo Salgado era o presidente não executivo da ESFG e acumulava esse cargo com a presidência executiva do BES. 

António Souto garantiu que essas operações financeiras eram «desconhecidas da maioria dos membros da comissão executiva» do banco. Por isso, «inesperadamente», os resultados do banco foram o descalabro que se conheceu depois. «O resto da história os senhores deputados já conhecem».

O antigo administrador afirmou que os mecanismos de ring fencing exigidos pelo Banco de Portugal, isto é, as determinações para acabar com a exposição da área financeira à área não financeira do Grupo Espírito Santo «não funcionavam» na ESFG. «Os factos que se terão acentuado num curto espaço de tempo vêm a ser determinantes para o colapso financeiro da ESFG, com a consequente desvalorização das garantias prestadas ao BES», sustentou.

Na audição desta manhã, a ex-diretora financeira do BES, Isabel Almeida, garantiu aos deputados que «nunca foram recompradas obrigações pelo BES aos clientes, até julho de 2014», o mês da derrocada do grupo e do banco. Os funcionários do BES venderam papel comercial a pensar que era «papel são», sublinhou ainda. «Não um produto tóxico».

 A ex-responsável do BES revelou, também, que tanto Ricardo Salgado como o ex-administrador financeiro, Morais Pires, se recusaram a explicar o esquema das obrigações à nova administração, na altura a de Vítor Bento.

António Souto, o segundo a prestar o seu contributo na comissão, esta terça-feira, explicou que os problemas começaram a ser conhecidos quando se descobriu a adulteração das contas do GES. «É uma adulteração de enorme significado. A partir daí, o processo de luta do banco é de construção do anel de defesa [ring fencing]».  

«Não foi fácil, estávamos perante a exigência de pagamento de dívida a um grupo não financeiro que, de repente, tinha mostrado um grau de endividamento muito superior ao que se tinha imaginado». «A descoberta, por parte dos auditores, de produtos financeiros que exigiram provisões adicionais foi a gota de água que não permitiu que o banco continuasse como BES»

A medida de resolução avançou a 3 de agosto, dividindo o banco em dois: o BES mau, tóxico, e o Novo Banco, presidido primeiro por Vítor Bento, que permaneceu pouco tempo no cargo e já foi ouvido na comissão de inquérito. Depois, por Eduardo Stock da Cunha, que ainda se mantém no cargo e será ouvido pelos deputados no próximo dia 10 de fevereiro