Os mercados pouco reagiram ao escândalo em Espanha de pagamentos ilegais no Partido Popular, mas uma eventual queda do Governo pode ter implicações para os países periféricos, e sobretudo para Portugal, garantem os analistas.

«Era preciso o caso ser muito sério para Portugal ter impacto no mercado europeu, no euro ou na dívida europeia, mas claramente Espanha já é diferente. Espanha já faz diferença porque tem um peso significativo na Europa», afirmou à Lusa João Pereira Leite, diretor de investimentos do Banco Carregosa.

O responsável do Banco Carregosa considerou que «se estes escândalos sobre o financiamento do partido do Governo resultarem numa queda do Governo, pode levar os investidores a questionarem a execução do que está previsto e obviamente ter consequências, quer nas bolsas quer no euro, e exigir medidas de prudência por parte da União Europeia».

«Espanha com um problema é um problema para Portugal. Enquanto Portugal com um problema não é problema para Espanha», acrescentou.

Já Teresa Gil Pinheiro, economista do BPI, reconhece que a situação em Espanha pode criar «alguma volatilidade nos mercados, sobretudo no mercado de dívida pública, o que pode trazer ao de cima a questão da crise de dívida pública da zona euro e os prémios de risco alargarem para os países da periferia».

Já a economista do BPI admite «efeitos» do escândalo em Espanha por «trazer à tona os riscos existentes nestas economias [periféricas]».

O presidente da IMF - Informação de Mercados Financeiros, Filipe Garcia, destaca que «para já, os mercados não estão a dar grande importância» às notícias de Espanha, considerando que os danos serão limitados já que não está em causa o cumprimento de um programa de ajustamento, como acontece com Portugal.

«Em Portugal, estamos a viver o fenómeno de 'casa que não tem pão'. O folhetim que existe em Espanha tem a ver com outras coisas. No caso português, se houver uma transição governamental não fica assegurado o normal cumprimento do programa de ajustamento, enquanto em Espanha não está em causa nenhuma programa [de assistência]», declarou.

O ministro da Economia de Espanha garantiu hoje que o escândalo de pagamentos ilegais no Partido Popular (PP) não está a afetar a perceção dos investidores internacionais e que as próximas emissões de dívida espanhola «vão correr bem».

As declarações de Luis de Guindos surgem um dia após o jornal espanhol «El Mundo» ter divulgado uma troca de mensagens escritas entre o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, e Luis Bárcenas, suspeito de estar por detrás de uma esquema de pagamentos irregulares aos principais dirigentes do partido, entre 1990 e 2009, e que incluem o chefe do executivo espanhol.