Em dois dias a Bolsa de Lisboa perdeu 4,4% e a capitalização do mercado desceu 2,3 mil milhões de euros. O índice PSI-20 perdeu ontem 3% e hoje perdeu mais 1,38%. Os operadores questionam-se quanto tempo levará o próximo Governo a formar-se, qual será a solução governativa, se esta será estável e ainda se vai garantir políticas que não travam a trajetória de recuperação económica.

Em entrevista à Reuters, o secretário-geral do PS, António Costa, disse que está em melhores condições do que a direita para formar em Portugal um Governo estável por quatro anos, após o PCP e o Bloco de Esquerda (BE) terem aceite negociar sem pôr em causa os compromissos com a zona euro, que serão integralmente cumpridos.

"Lisboa não só acompanha a queda dos mercados europeus, mas reflete adicionalmente alguma incerteza política, que pressiona sobretudo os bancos, uma vez que nos juros da dívida esta pressão não se sente", disse em declarações à Reuters Albino Oliveira, analista da Fincor.

As acções do Millennium BCP chegaram a tombar 9% e fecharam a cair 4,21%, prolongando a tendência de iniciada ontem, quando afundou 9,38%.

A Bolsa de Lisboa, e especialmente os títulos da banca, reagiram negativamente após a líder do BE, Catarina Martins, ter dito ontem que o Governo de coligação de centro-direita "acabou" e que estão criadas as condições para viabilizar um Governo liderado pelos Socialistas.

"O BCP, como tem mais liquidez, é mais suscetível de ser empurrado para baixo, contudo, não é só o BCP que desce, os restantes bancos também. Para além disso, temos um cenário negativo na Europa que estimula mais o sentimento", disse Luís Castro, trader da Golden Broker, no Porto.

O BPI caiu 1,5%, após ter desvalorizado 7,29% ontem.

Paulo Rosa, operador da GoBulling, recordou que a queda do BCP também inclui uma componente de correção, dado que o título disparou mais de 50% nas últimas semanas.

A Jerónimo Martins caiu 1,76%, pressionada ainda pela preocupação com a eventual introdução de uma nova taxa sobre as vendas das grandes retalhistas na Polónia, apesar dos analistas referirem que a retalhista poderá passar facilmente o seu custo para os clientes.

No sector da energia, a Galp perdeu 1,44% e a EDP 0,41%. Segundo o jornal espanhol Expansion, a Repsol está em conversações com a EDP para a venda do seu negócio de gás.

A Pharol, que detém 27,5% da operadora brasileira Oi, tombou 7% para 0,304 euros. Os acionistas angolanos da telecom Unitel iniciaram uma ação judicial num tribunal de Luanda, acusando a PT Ventures de violar o direito de preferência quando vendeu da sua participação na Unitel à Oi. Esta ação judicial é o mais recente passo num braço de ferro entre a Oi e os seus parceiros na Unitel. Os analistas têm incluído este diferendo nos riscos que a Oi enfrenta, no contexto da possibilidade de movimentos de fusão e aquisição no mercado brasileiro.

A taxa de juro implícita das Obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos recua 3 pontos base (pb) para 2,42%, em linha com as pares europeias, com o mercado de dívida a mostrar escassa preocupação com a incerteza política no país após as eleições de 4 de Outubro, ao contrário da bolsa lisboeta. "Qualquer valor abaixo de 2,5% significa que o mercado ou não está preocupado ou não se apercebe da situação de incerteza política que se está a viver em Portugal," disse Ricardo Marques, trader de dívida na IMF-Informação Mercados Financeiros. "Se houvesse um receio mais sério (sobre a incerteza política) aí estaríamos a ver hoje a taxa a subir 20 pb ou 30 pb," vincou. Os operadores salientam também que, ao contrário da ações portuguesas, a dívida soberana está protegida pelo apoio do agressivo programa de compras do Banco Central Europeu.

CHINA PRESSIONA

O índice Eurofirst300, que agrega as 300 maiores cotadas do continente, caiu 0,96%. Segundo os operadores, o sentimento negativo está relacionado com uma queda de 20,4% na importações chinesas em Setembro, mais do que a queda de 15% esperada, apesar de uma descida de 3,7% nas exportações terem surpreendido pela positiva. Enquanto as exportações chinesas “registaram uma recuperação saudável, a fraquezas das importações demonstra que a economia do país continua a sofrer," segundo Markus Huber, analista na Peregrine & Black.

Dados fracos da Alemanha também pressionam as praças europeias, com o índice de sentimento ZEW, que sonda o sentimento dos analistas e investidores, a cair em Outubro.