Portugal poderá necessitar de medidas adicionais para injetar liquidez na economia, pois os 1,14 biliões de euros do programa de compra de ativos do BCE na zona euro poderão não chegar, admite o economista Samuel da Rocha Lopes.

«A dimensão do programa [do Banco Central Europeu – BCE] poderá não ser suficiente para desbloquear a concessão de crédito e poderá continuar a existir um desajustamento entre as necessidades das PME [Pequenas e Médias Empresas] e o que o sistema bancário é capaz de oferecer», afirmou o professor na Universidade Nova de Lisboa e na universidade de Aarhus, na Dinamarca, à Lusa.

Tendo em conta que as empresas portuguesas têm um «dos mais altos» níveis de endividamento da zona euro, o economista sugere o desenvolvimento e a implementação de «outras alternativas ao tradicional crédito bancário, porque a corrente alocação de recursos ao investimento continua a enfrentar deficiências estruturais».

O setor bancário, vincou, tem «um peso muito importante em termos de Produto Interno Bruto (PIB) na concessão de crédito, [mas] continua frágil, tal como demonstra o último relatório sobre riscos no setor bancário europeu da Autoridade Bancária Europeia».

A 22 de janeiro, o BCE a nunciou um programa de compra de ativos - dívida pública e privada - no valor de 1,14 biliões euros, cerca de 12% do PIB da zona euro, até ao final de setembro de 2016, com o objetivo de combater a deflação na zona euro e estimular a economia.

Este, referiu Samuel Lopes, «é similar em dimensão ao primeiro programa do Banco de Inglaterra [266 mil milhões de euros], cerca de 14% do PIB, mas abaixo, por exemplo, do da Reserva Federal (Fed) nos EUA, [3,97 biliões de euros, equivalente a 12% do PIB]».

O antigo economista do BCE considera o valor anunciado pelo banco central "mínimo suficiente para se traduzir em alguns resultados", como o combate à deflação.

Porém, acrescentou, «poderá não ter os mesmos resultados na transmissão à economia real, especialmente pelo facto de na Europa o peso do setor bancário ser muito mais elevado face ao mercado de capitais, em comparação com os Estados Unidos e Reino Unido, e o canal de transmissão de crédito bancário continuar a não funcionar corretamente em alguns países, como Portugal».

A injeção de liquidez do BCE poderá ajudar à sustentabilidade da dívida soberana portuguesa e levar à desvalorização do euro, facilitando as exportações portuguesas, admitiu Samuel Lopes.

Contudo, deixou um aviso: o programa «não resolve os problemas estruturais e existe o risco de que se provoque um abrandamento das reformas de que Portugal precisa para ser mais competitivo e suba nos ‘rankings’ mundiais de competitividade e de atração de investimento».