Os sindicatos fazem pressão nas ruas para o regresso às 35 horas de trabalho na função pública. E há pressão em sentido contrário, vinda de fora e de dentro dos gabinetes do Banco Central Europeu, com um dos seus elementos a questionar quanto custa a medida que António Costa já prometeu entrar em vigor a 1 de julho.

Em entrevista ao jornal Público, Peter Praet, que é membro do conselho executivo do BCE, faz notar que o banco central está a "acompanhar" as reformas estruturais em Portugal. Até assinala que um dos seis pilares, a coesão social, é "muito importante". No entanto, logo adverte para os senãos das escolhas do Governo. 

"Mas há algumas reformas que foram revertidas, e precisamos, por isso, de levantar uma série de questões. Quais são as implicações orçamentais, por exemplo, se se voltar para a semana de 35 horas? Este ainda é um período em que existem pontos de interrogação"

Embora enalteça que as taxas de juro que o país paga para se financiar baixaram não só por causa do programa de compra de ativos do BCE, mas também porque o programa de resgate foi cumprido - e esse é "um dos principais fatores" - , Peter Praet sublinha que Portugal "não deve esquecer esta mensagem: a disciplina do mercado ainda está presente". Com isso, sugere que o país não se meta em grandes aventuras e recorda também que em todas as agências de rating, menos uma, a dívida portuguesa ainda está no nível lixo. 

Quanto à banca, sendo ele um representante do BCE, adverte que os indicadores mostram que o setor "ainda é frágil" e que "o ajustamento está longe de estar concluído". Novo aviso ao Governo:

"Ainda é difícil perceber qual é a estratégia aqui. Por exemplo, um veículo de gestão de ativos é uma boa ideia, mas é tecnicamente difícil de concretizar e pode demorar tempo até estar operacional"

Peter Praet refere-se ao banco mau para o malparado defendido pelo primeiro-ministro e cuja necessidade já foi corroborada pelo Presidente da República e pelo governador do Banco de Portugal. Os banqueiros é que não estão em sintonia

No caso português, a maioria do crédito de cobrança duvidosa está concentrado nas PME, empréstimos em que é "muito mais difícil definir um preço". "Se um banqueiro tenta vender esses créditos, o comprador não sabe exatamente o que está a comprar, por isso o preço acaba por ser muito baixo. Estas questões técnicas são muito difíceis de resolver", faz notar. 

Questionado na mesma entrevista sobre se o facto de a união bancária não estar terminada não conduz a que os bancos pequenos dos países pequenos, como é o caso de Portugal, sejam comprados pelos bancos maiores dos grandes países, este membro do BCE não percebe porque é que isso seria um problema. Defende que é "absolutamente vital que se evolua em direção a bancos pan-europeus", que estejam "geograficamente diversificados e que tenham uma garantia de toda a união monetária como um todo". 

"O que interessa é que os bancos sejam bem geridos, não que sejam detidos por nacionais. Pode sempre haver bancos locais, não é esse o problema, mas ter todo o sistema bancário exposto a uma economia local na união monetária como a nossa é uma combinação perigosa"