O vice-governador do Banco de Portugal, Pedro Duarte Neves, rejeita responsabilidades na transmissão tardia de informação relativa ao Banco Espírito Santo. Na audição da comissão de inquérito parlamentar ao BES, o responsável respondeu à KPMG, que alegadamente o terá informado a 16 de julho sobre as perdas do banco.

«Segundo informou, terá alertado o governador para a questão da KPMG a 16 de julho. Ele esteve cá a 18 e não sabia de nada. E disse esta manhã que só soube a 25 de julho. Porque é que só avisou governador tão tarde sobre um problema destes? E isto teve alguma coisa a ver com alteração de pelouros que acabou por afetá-lo?», perguntou o deputado do PSD, Duarte Marques.

«Sobre a KPMG e reunião de 16 de julho fiz esclarecimento público que diz exatamente, de forma fiel, o que se passou nessa reunião. Queria referir dois aspetos adicionais em relação a essa reunião, que não constam de forma explícita do meu comunicado:

Primeiro: nessa reunião não foi referido que teria que haver perdas; aquilo que se falou foi que que a KPMG estava a estudar operações em causa». E a recompra de obrigações mencionada foi relativamente a 2012 e não a recompras de 2014, adiantou. 

«Sabemos das perdas refletidas nas contas da Espírito Santo em junho de 2014, essas contas tinham a ver com situação de recompra de obrigações de 2014. As recompras não têm necessariamente prejuízos associados. Podem ter ganhos, podem ter perdas». 

E as de 2012, tiveram? O vice-governador diz que nessa altura admitia-se, no máximo, perdas de 100 milhões de euros. Mas era uma estimativa. 

«Quero dizer com isto que não houve nenhuma afirmação de que ia haver perdas, porque operação não estava concluída. Segundo, aquilo que foi referido foi uma operação de 2012. Mas foram as de 2014 que vieram a constituir perdas que tiveram lugar em julho.

Naquele preciso momento ninguém falou das obrigações de 2014, só das de 2012; porque não se conheciam, ou porque não se achou importante. Não fui eu que trouxe esse tema para a reunião».

Depois deste primeiro esclarecimento, Duarte Marques perguntou: «Mas se havia essa perda, seja ela de 2012 ou de 2014, ela existia. Era um buraco. Não era assim tão relevante?».

Pedro Duarte Neves respondeu: «Naquela reunião foi mencionada uma operação e sobre essa operação não foi mencionado que teria de haver perdas. Era uma questão que estava em análise. Nessa reunião, foi referida uma operação em relação a 2012. Com toda a informação que houve posterior a essa, no máximo dos máximos, as perdas associadas a 2012 seriam 100 milhões de euros. Mas essa informação não existia na altura.

 Sobre a razão da rotação dos pelouros do BdP, em que foi afastado do pelouro da supervisão prudencial, sensível ao caso BES, remeteu para as declarações do Governador do Banco de Portugal sobre o assunto.

Pedro Duarte Neves admitiu, ainda, que existe um relatório da PriceWaterhouseCoopers, datado de 2002, mas não subscreveu que esse relatório já se referia a práticas fraudulentas, como perguntou Duarte Marques. Foi omisso em relação a este ponto. Mas disse que o BdP «terá todo o gosto em disponibilizar» o referido relatório.