O economista Paulo Trigo Pereira afirmou hoje que os juros da dívida pública não se vão manter tão baixos nos próximos oito anos, período em que Portugal terá mais de 100 mil milhões de euros de dívida para amortizar.

O economista esteve hoje na comissão parlamentar de Orçamento, Finanças e Administração Pública, juntamente com outros signatários da petição «Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente», incluindo Francisco Louçã e João Cravinho.

Na audição, o professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) afirmou que, além destes cerca de 100 mil milhões de euros de dívida para pagar em oito anos, há ainda que acrescentar os défices orçamentais que se verificarem nesse período e também a necessidade de recapitalização de empresas públicas ou assunção de passivos que possam surgir.

Além disso, o economista afirmou que nenhum dos signatários da petição «está muito confiante que as taxas de juros a dez anos se vão manter nos níveis historicamente baixos [abaixo dos 4%] a que estão agora nos próximos sete a oito anos».

Na audição, o deputado do PSD Cristóvão Crespo disse ter «alguma dificuldade em perceber o tempo e o modo desta petição», considerou que é importante perceber como vai ser «o dia a seguir à renegociação» e deixou ainda uma acusação.

«Se calhar, estão aqui algumas pessoas que foram responsáveis por este acumular de passivos. O que temos de ter, neste momento, é realismo e algum sangue frio para lidar com estas questões», afirmou.

Na resposta, Paulo Trigo Pereira afirmou que «querer colar isto a uma agenda política é perfeitamente legítimo», mas insistiu que se trata de um «desígnio nacional».

«Se não houver renegociação da dívida, vamos estar aqui todos daqui a dois ou três anos a discutir outra vez» a sustentabilidade da dívida pública portuguesa, disse o professor do ISEG.

A petição que defende a reestruturação da dívida portuguesa, e que já reuniu mais de 35 mil assinaturas, foi entregue em abril à presidente da Assembleia da República pelo antigo Provedor de Justiça Alfredo José de Sousa.

Hoje, a comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública ouviu alguns signatários do documento, sendo agora redigido um parecer pela deputada socialista Sónia Fertuzinhos, que será posteriormente discutido e aprovado na mesma comissão, seguindo-se a discussão em plenário.

A petição «Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente» pretende conseguir que os deputados aprovem «uma resolução recomendando ao Governo o desenvolvimento de um processo preparatório tendente à reestruturação honrada e responsável da dívida».

Entre os subscritores da petição estão os ex-ministros das Finanças Manuela Ferreira Leite, José da Silva Lopes e António Bagão Félix, o constitucionalista Jorge Miranda, o antigo Chefe do Estado Maior do Exército Pinto Ramalho, o ex-Chefe do Estado Maior da Armada Melo Gomes, o antigo reitor da Universidade de Lisboa Barata Moura, o antigo Bispo das Forças Armadas Januário Torgal Ferreira, o professor universitário Pacheco Pereira, a escritora Lídia Jorge, a eurodeputada Ana Gomes e os ex-secretários de Estado dos Assuntos Europeus Fernando Neves e Seixas da Costa.