As oito pessoas mais ricas do mundo têm tanto dinheiro como metade da população. Esta grande discrepância, espelhada em números, tem rosto: metade da população é o mesmo que dizer 3,6 mil milhões de pobres. Os resultados deste estudo da Oxfam surgem em antecipação do Fórum Económico Mundial de Davos, que decorre esta semana entre terça e sexta-feira.

O retrato deste ano da desigualdade é mais claro, mais preciso e mais chocante do que nunca. Além do grotesco que é um grupo de homens que poderia caber facilmente num único carrinho de golfe possuir mais do que a metade mais pobre da humanidade, uma em cada nove pessoas no planeta vão para a cama com fome esta noite. Um pequeno grupo de bilionários tem tanta riqueza que precisaria de várias vidas para gastá-la".

A concentração de riqueza no topo "está a impedir a luta para acabar com a pobreza global", realça o estudo. Embora o número de pessoas que vivem em extrema pobreza tenha diminuído nas últimas décadas, 700 milhões de pessoas poderiam ter saído dessas estatísticas negras se tivesse sido feito algo para reduzir o fosso entre ricos e pobres.

Bill Gates, o homem forte da Microsoft, lidera a lista de milionários (ou bilionários neste caso), acompanhado por outras sete pessoas:

Bill Gates (Microsoft) 75 mil milhões de dólares (70,4 mil milhões euros)
Amancio Ortega (Inditex) $ 67 mil milhões (€ 63 mil milhões)
Warren Buffett (Investidor) $ 60,8 mil milhões (€ 57 mil milhões)
Carlos Slim  $ 50 mil milhões (€ 47 mil milhões)
Jeff Bezos (Amazon) 45,2 mil milhões (€ 42,4 mil milhões)
Mark Zuckerberg (Facebook) $ 44,6 mil milhões (€ 41,9 mil milhões)
Larry Ellison (Oracle e ex-presidente da câmara de Nova Iorque  $ 40 mil milhões (€ 37,6 mil milhões)
Michael Bloomberg (Bloomberg) $ 40 mil milhões (€ 37,6 mil milhões)

Cálculos da Oxfam baseados em dados da Forbes e da distribuição da riqueza global fornecidos pelo Credit Suisse

Ainda segundo a Oxfam, o salário médio do presidente-executivo de uma das empresas que compõem o FTSE 100, a bolsa de Londres, é 129 vezes superior ao dos funcionários médios. Cerca de 10.000 pessoas têm de trabalhar em fábricas de vestuário no  Bangladesh para ganhar o mesmo.

Outra conclusão alarmante é que, sobretudo na Índia e na China, os mais pobres têm ainda menos dinheiro do que se pensava.

A diferença entre ricos e pobres é muito maior do que se temia, e a caridade espelha aquilo que o estudo considera ser uma economia "deformada". É que, atualmente, uma em cada nove pessoas passa fome. 

Entre 1988 e 2011, os rendimentos dos 10% mais pobres aumentaram apenas cerca de 61 euros, enquanto os rendimentos dos 1% mais ricos cresceram 182 vezes mais para 11.100 euros.

A Oxfam pede, por isso, à elite empresarial e política que vai reunir-se em Davos que melhore a cooperação internacional para impedir a evasão fiscal. Ao mesmo tempo, apela a que se incentive as empresas a agir em benefício dos seus recursos humanos, com salários dignos e impostos justos, bem como dos acionistas, que haja impostos sobre a riqueza para financiar a saúde, a educação ea  criação de empregos. A igualdade de género, melhorando as oportunidades para as mulheres, é outro dos pedidos expressos.

Os milionários portugueses

Em Portugal, 20% dos mais ricos têm um rendimento cerca de seis vezes superior àquilo que detêm os mais pobres. O indicador de desigualdade na distribuição do rendimento (que podemos ver no gráfico a seguir) compara o rendimento dos 20% mais ricos com o rendimento dos 20% mais pobres de uma população. Quanto maior é este indicador, maior é a desigualdade na distribuição do rendimento entre a população. Neste caso, o rácio está perto de seis, daí a discrepância ser de cerca de seis vezes.

 

PORDATA com base em dados do INE, Eurodtat e Inquérito às Condições de Vida e Rendimento

As fortunas, em Portugal, têm uma dimensão diferente dos bilionários à escala mundial, mas ainda assim bastante grande para o contexto nacional. Os últimos dados conhecidos, de um estudo do Credit Suisse, indicam que surgiram mais 1.300 novos milionários em Portugal no ano passado. Ainda assim, a proporção de adultos com património acima de um milhão de dólares é de apenas 0,6% no conjunto da população.

Os três mais ricos estão ainda mais ricos: Américo Amorim 3.071 milhões de euros; Alexandre Soares dos Santos, patrão do grupo Jerónimo Martins (2.078 milhões) e família Mello (1.285 milhões) que dirige empresas como a Brisa, Cuf e Mello Saúde.

Há outra fatia que tem também um mealheiro recheado, os portugueses com uma riqueza entre 100 mil e 1 milhão de dólares. São 15% do total da população.

Também entre quem tem menos há melhorias: a riqueza média de cada português adulto subiu este ano. para 77.113 dólares (72.664 euros), mais 1,3% face a 2015.

Só que a grande maioria - 84,4% - tem menos de 100 mil dólares. Destes, 55,7% possui entre 10 mil e 100 mil dólares e 28,7% não chegam aos 10 mil.

A Oxfam realça que "é óbvio que, nas últimas décadas, muitos governos não têm atuado no sentido de efetivamente reduzir a desigualdade". E especifica: " A falta de uma política governamental adequada para o salário mínimo e para proteger os direitos do trabalhador, negociações coletivas e a greve, tem impedido o estabelecimento de um padrão mais elevado para o que seria trabalho decente. As políticas fiscais e de gastos não têm sido suficientemente robustas para redistribuir a renda dos mais ricos para os mais pobres".

Elenca, por isso, várias falsas premissas das quais partem muitos governos e empresas para não mudar o estado de coisas. Desde logo, que "o mercado está sempre certo e que o papel do Governo na economia deve ser minimizado"; que as empresas "devem maximizar os seus lucros e retornos aos acionistas a todo o custo",  que "a riqueza individul extrema é boa e um sinal de sucesso" e que "a desigualdade não é relevante", que "o crescimento do PIB deve ser o principal objetivo de formulação de políticas"; que "o modelo de crescimento impulsionado pelo lucro é neutro em relação ao género"; que "o planeta fornece recursos ilimitados para a economia".