Os mercados andam nervosos e não há razões para menos. Nas últimas semanas, as sondagens deram cada vez mais voz à saída do Reino Unido da União Europeia, embora na última a tendência tenha começado a inverter-se. O veredicto será no próximo dia 23 de junho, quinta-feira, dia em que terá lugar então o referendo à população britânica.

Com ativos de risco mais elevado, o mercado acionista é sempre dos primeiros a tremer e, desta vez, a dimensão do susto é grande tendo em conta que nunca alguém experimentou a saída de um Estado-membro da União, sobretudo com a dimensão de uma economia como a do Reino Unido.

“As ações têm sido penalizadas porque existe uma redução de expetativas de crescimento. Por outras palavras, a possibilidade do Reino Unido sair da UE contribui para um clima de incerteza, o que leva a um adiar de decisões de investimento e de consumo, e consequentemente reduzem-se as expetativas em termos de resultados das empresas cotadas”, disse à TVI, pelo David Pinheiro, gestor de fundos multi-ativos da IMGA.

Uma opinião partilhada por de João Queiroz, diretor de negociação da GoBulling/Banco Carregosa. “O possível evento de Brexit, num primeiro momento, teria impacto mais negativo nas ações, sobretudo, dos países com menor equilíbrio orçamental e elevado endividamento como os países da periferia da Europa”.

Mas João Queiroz vai mais longe e deixa claro que não é só o Brexit que está a empurrar os preços para baixo. No caso dos países periféricos evolução da economia é determinante. “Mas no caso de Portugal, há ainda outras razões: a debilidade da banca quer pública, quer privada é uma delas. A recapitalização da CGD pode sair muito cara ao país, a venda do NB continua sem solução e com elevados custos, o BCP está cercado de problemas…” acrescenta.

Em momentos de incerteza a prudência é uma boa opção. Se não quiser deixar logo o mercado acionista pode optar por títulos de empresas menos expostas ao mercado britânico, sendo certo que em matéria de setores o financeiro é sempre dos mais sensíveis a expetativas de crescimento.

“As empresas mais penalizadas deverão ser as que se encontram mais expostas a atual relação comercial entre o Reino Unido e o resto da UE, i.e., as empresas britânicas que dependem das exportações para os países membros da União, e as empresas dentro dos restantes países membros da UE que exportam para o Reino Unido”, assegura David Pinheiro.

Logo “o mercado acionista os ativos de refúgio para este risco específico deverão ser as ações das empresas menos expostas ao mercado britânico, ou as empresas britânicas com receitas provenientes de fora da EU”, acrescenta.

“As maiores saídas são da banca e também, notamos agora, de algumas empresas do setor das utilities muito endividadas, como as elétricas. As que oferecem algum refúgio são as empresas globais de grande consumo, de que a Nestlé ou a Procter & Gamble podem ser exemplo, e ainda o setor dos cuidados de saúde (healthcare)”, reforça João Queiroz.

Se sair das ações para onde do canalizar o investimento?

Esta é a pergunta que muitos têm feito nos últimos meses e como maior intensidade nas últimas semanas. Já qual for a alternativa, dependerá sempre do perfil de risco de cada investidor.  Ou seja, mais ou menos aventureiro.

Para João Queiroz, “a grande maioria está atualmente a optar entre aumentar a liquidez das carteiras, deter instrumentos financeiros com exposição a mercadorias como os metais preciosos e entre investir em dívida de longo prazo de países como Alemanha e EUA”.

O gestor de fundos multi-ativos da IMGA também não tem dúvidas: “os ativos que deverão beneficiar de um eventual Brexit são obrigações de dívida pública dos EUA, Alemanha e Japão, dada a incerteza que iria gerar em termos de impactos no crescimento global”.

Mas há mais hipóteses. “É possível que se verifique uma apreciação do dólar americano e do iene japonês face às restantes divisas”, acrescenta.

Em relação ao ouro, David Pinheiro é mais cauteloso. “A reação do ouro é mais difícil de prever. Poderia sair beneficiado dependendo da reação dos bancos centrais ao Brexit, i.e., num contexto em que os bancos centrais anunciam mais medidas de estímulo o ouro deveria ser beneficiado”.

Qual o sentido de andar a pagar para deter dívida da Alemanha?

Esta semana os juros da dívida alemão no mercado secundário bateram mínimos históricos com taxas negativas. Ou seja, havia investidores a pagarem para deterem dívida da maior economia da Europa.

Parece que não faz sentido mas há um racional por detrás desta opção. “A Alemanha apresenta fundamentais económicos mais sólidos em comparação com os seus pares europeus, nomeadamente a taxa de desemprego em mínimo histórico, rácio de dívida pública sobre o PIB abaixo da média, e uma balança comercial positiva com o resto do mundo, o que dá suporte à qualidade creditícia do Estado alemão como emitente de dívida pública e justifica um nível de rentabilidade inferior em comparação com os restantes países”, justifica David Pinheiro.

Aposta em dívida alemã tem ainda outra mais-valia “é também um ativo de refúgio num potencial cenário em que se verifica um “break up” – rutura - da zona euro e da moeda única, i.e., neste cenário os títulos de dívida pública alemã seriam convertidos em marcos alemães, e deveriam registar forte apreciação face às restantes moedas. Logo, a dívida alemã serve de seguro para este risco”, acrescenta o gestor de fundos.

Seja qual for o caso, a realidade mostra que apostar em dívida alemão está na moda, pelo menos os últimos anos. “Essa tem sido a opção durante períodos de maior incerteza e menor complacência perante o risco, num cenário de ausência de remuneração nas tradicionais aplicações bancárias a prazo e numa conjuntura de baixas taxas de juro durante uma perspetiva de longo período”, constata João Queiroz.

O futuro ninguém conhece mas o do Reino Unido na União Europeia será conhecido dentro de uma semana.