Luís Campos e Cunha considera que o maior problema do atual Governo foi não ter conseguido pôr as contas públicas em ordem de forma sustentável, defendendo que para obter o resultado alcançado não tinham sido necessários tantos sacrifícios.

«O problema maior que o Governo teve foi não ter conseguido pôr as finanças públicas em ordem de forma sustentável», diz o economista em entrevista à Lusa, justificando que «para isso, teria de ter acentuado muito mais o corte de despesa e muito menos o aumento de impostos».

Para o professor universitário, «este aumento de impostos é provavelmente insustentável», embora reconheça que a descida da taxa do IRC em 2014 de 25% para 23% já «permite uma maior estabilização das expectativas dos investidores nacionais e internacionais», mas lembra que o IRS e o próprio IVA «têm valores extremamente elevados».

O antigo ministro das Finanças defende que a opção mais correta seria uma maior consolidação do lado da despesa e explica como a alcançar.

Afirmando que «não há uma lista de supermercado que diga onde se corta» a despesa, Campos e Cunha adianta que «a primeira tarefa para saber onde cortar é ir à procura do desperdício» e que para isso é necessário ir «à base da pirâmide, fazer auditorias de gestão com os próprio trabalhadores porque eles são os primeiros a saber onde está esse desperdício».

«Fazer análise de processos e de procedimentos, fazer a pergunta se este papel é necessário e se for, saber se é preciso ter dez assinaturas ou se basta ter três», continuou.

O economista lembrou ainda que este «é um trabalho de formiga muito importante que devia ser feito em permanência» ao mesmo tempo que é preciso «fazer benchmarking», até porque «pode haver uma repartição de finanças a funcionar muito bem e ao lado ter outra a funcionar muito mal» e é através da comparação que será possível «tomar medidas que permitam o corte na despesa».

«Este trabalho deve ser realizado permanentemente, provavelmente com consultoras privadas habituadas a fazê-lo nas empresas e, portanto, podem facilmente, com os funcionários públicos, chegar a conclusões importantes», defendeu.

Este trabalho não foi feito provavelmente por falta de visão, salienta Campos e Cunha, lembrando que a opção por fazer cortes horizontais não só não é a mais correta como beneficia o incumpridor: «Obviamente não é solução» cortar 5% a todos, até porque, prossegue o economista, esses cortes «vão premiar o infrator».

Campos e Cunha explica porquê: «As divisões, as repartições que têm grandes gorduras, se lhe cortarem 5%, ficam na mesma. São exatamente as áreas mais eficientes em que não há esse espaço que são prejudicadas. Portanto dá-se incentivos para que, na próxima vez, aqueles que eram eficientes procurem ganhar algum espaço para poderem respirar no caso de haver um novo corte».

«Este tipo de ações são mais difíceis, mais duras, mas são muito mais eficientes», diz o economista, concluindo que a serem adotadas, ou tinha havido melhores resultados, «ou, para termos estes resultados, não necessitávamos de ter pedido tantos sacrifícios ao povo português».

O professor universitário lembra que o país ainda não recuperou a soberania perdida com a chegada da troika em 2011 e que Portugal vai estar «numa situação de protetorado durante, provavelmente, mais dez ou vinte anos» porque, tendo em conta que o «nível de endividamento é muito elevado, [Portugal está] a dever dinheiro» aos países financiadores e ao FMI e, portanto, vai haver «uma situação de protetorado».

Ainda assim, Campos e Cunha sublinha que Portugal está «muito melhor do que estava há três anos, desse ponto de vista», mas deixa um alerta: «Ainda não estamos bem e ainda é fácil perdermos tudo o que fizemos.»

O Governo tem até ao dia 15 de outubro para apresentar na Assembleia da República a sua proposta de Orçamento do Estado para 2015.