Em primeiro lugar, para Stock da Cunha, "a principal vitória" foi o Novo Banco sobreviver. Depois, acredita que o banco pode ser bem vendido e que pode dar lucro em 2018. Já quanto à herança do BES, a coisa é bem diferente: ainda há muito para limpar, admitiu em entrevista ao Jornal de Negócios.

"O trabalho está iniciado, mas falta limpar ainda bastante. Quando digo limpar significa gerir as situações. São situações com as quais vamos ter de viver muito tempo"

Os créditos em matrioskas, créditos ocultos que admitiu poderem considerar-se como tal, foram e são alguns dos problemas. Embora não fossem "prática generalizada", Stock da Cunha deu o exemplo das soluções comerciais dirigidas aos emigrantes e o de um grupo que não quis especificar, dizendo apenas que em causa estavam "clientes grandes".

"Demorou quase um ano a descobrir exactamente a totalidade dessa relação creditícia porque tínhamos nas unidades de gestão de activos e na unidade de seguros alguns veículos de investimento, que possuíam outros veículos de investimento, que por sua vez possuíam outros veículos de investimento… Tivemos de descer quatro a cinco degraus na camada para descobrir o que lá está".

O que já está feito

Quanto a outras contas, as do primeiro trimestre, explicou que teve um montante de provisões "significativo, de 185 milhões, só para crédito". E "provavelmente" é o que acontecerá no segundo trimestre. "Estamos é a gerir muito melhor a rendibilidade operacional", garante. "Resultado operacional já dá, em 2015 foram 125 milhões, este ano mais do que duplicará o valor". Lucros é que não, mas a sua estimativa é que a instituição regresse a esse patamar daqui a menos de dois anos.

No processo de transformação do Novo Banco, em termos estratégicos a execução é de 80%. "Falta definir muito pouca coisa. Basicamente qual é o papel que Espanha, o que se quer relativamente à unidade de gestão de activos e à companhia de seguros – se se vende a um especialista no sector com acordo de distribuição. Em termos de infra-estrutura, estamos quase a 90%".

"O NB é um dos bancos mais competitivos em custos operativos. A 4 de agosto, ainda com BESI, o NB gastava 1.025 milhões de euros por ano. Está a gastar, em base anualizada, menos de 600 milhões, menos 40%. O número de pessoas baixou 30%. Em termos de execução, estamos abaixo de 50%. Falta executar".

O que falta fazer

Quando diz "executar" dá como exemplo o Novo Banco Ásia, que está à venda. Depois, "o processo do famoso BICV, de Cabo Verde, em andamento" e o BES Vénétie. Em todos estes casos, espera assinar acordos de compra e venda antes do final do ano. Para além disso, há os fundos de investimento que é preciso fundir e, em termos de imobiliário, houve um encaixe de 250 milhões nos primeiros seis meses do ano.

À frente do Novo Banco desde setembro de 2014 regressará em breve ao Lloyds. Sem vender  a instituição? Stock da Cunha defende que não foi para isso que aceitou integrar o Novo Banco, mas sim para criar valor. E sai de consciência tranquila: "Quando refiro que o banco sobreviveu e que isso não estava assegurado no dia 1, a resposta só pode ser positiva".

E entende que o banco não perdeu valor, embora já se tenha falado numa venda próxima dos 4.900 milhões canalizados, mas agora o objetivo seja vender sem ter de injetar mais dinheiro.

"Não me parece que haja deterioração de valor. Há é a constatação de duas coisas. A primeira é que o banco tinha uma situação de partida muito mais frágil do que aquilo que se conhecia. A segunda é que houve uma deterioração grande dos mercados. Que banco na Península Ibérica não perdeu valor entre 2014 e 2016?"

Na mesma entrevista, Stock da Cunha reconhece que aprendeu a gerir "em stress extremo" no Novo Banco e que vai "bem equipado" para o Brexit, no regresso à City londrina.