Um administrador da empresa pública Águas de Portugal também fazia parte da equipa do Citigroup que propôs contratos de swap ao Governo de José Sócrates para maquilhar as contas públicas, avança a Lusa.

Gonçalo Ayala Martins Barata é, desde fevereiro de 2012, administrador da Águas de Portugal, nomeado pelo Ministério da Agricultura e do Ambiente. Mas é também um dos nomes que integrava a equipa do Citigroup responsável pela proposta apresentada à Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), a par do atual secretário de Estado do Tesouro, Joaquim Pais Jorge, que era então (2005) diretor do Citibank Coverage Portugal.

A Lusa questionou o gabinete de Gonçalo Martins Barata na Águas de Portugal, mas ainda não foi possível esclarecer qual o seu envolvimento neste processo. Também o Ministério de Assunção Cristas, responsável em 2012 pela nomeação da administração da Águas de Portugal, não fez qualquer comentário até ao momento.

Gonçalo Barata entrou para o Citibank Portugal em 1994, e em 2002 passou a ser diretor da área de Fixed Income Capital Markets Origination do Citigroup, em Portugal, «com responsabilidade pela originação de dívida para os principais emitentes nacionais e estruturação e aconselhamento na gestão de riscos financeiros», de acordo com o currículo disponibilizado pela Águas de Portugal.

Na proposta entregue ao Governo socialista, o nome deste responsável surge por baixo do de Paulo Gray, à data diretor-geral para Portugal e Espanha da área de Fixed Income do Citigroup, e que é hoje diretor-geral da StormHarbour. Esta consultora foi a escolhida pelo IGCP para avaliar os swaps problemáticos contratados pelas empresas públicas.

Paulo Gray e Joaquim Pais Jorge, que era presidente da Parpública (a holding que gere as participações do Estado) antes de ir para o Governo, terão tentado vender ao governo socialista este tipo de operações em três reuniões realizadas em 2005: 01 de julho, 21 de julho e 25 de outubro.

Joaquim Pais Jorge, recorde-se, foi também vogal do conselho de administração da Águas de Portugal entre 2012 e 2013, ou seja, foi colega de Gonçalo Martins Barata na empresa pública.

Além de Joaquim Pais Jorge, Paulo Gray e Gonçalo Barata, na proposta do Citigroup constam ainda os nomes de Ana Barros, diretora do departamento de investment banking, e Luís Sousa, diretor da área de securitização em Portugal, e que deixou o Citigroup Portugal para ingressar no banco Santander. Da equipa faziam ainda parte Simon Dudley, que era diretor-geral da divisão de European Infraestructure and Corporate Securitization, Chris Blin e Mark Lorkin, do mesmo departamento.

De acordo com o documento a que a Lusa teve acesso, o banco norte-americano fez várias propostas ao IGCP, de swaps que baixariam artificialmente o défice370 milhões em 2005 e 450 milhões em 2006. Se o IGCP quisesse, a redução podia ser maior.

A operação consistia na contratação pelo IGCP de três swaps com maturidades a 30 anos, que fariam com que as taxas de juro [superiores à média do mercado] a pagar relativas às Obrigações do Tesouro (OT) existentes em 2005 e 2006 fossem pagas ao longo de mais de 30 anos.

O documento inclui ainda um anexo no qual o Citigroup explica como é que o swap consegue fugir às regras do Eurostat e assim baixar o défice. São os chamados swap Eurostat friendly.

O secretário de Estado do Tesouro, Joaquim Pais Jorge, recusou na semana passada responsabilidades na tentativa de venda pelo Citigroup ao Estado de swaps para baixar artificialmente o défice, mas disse não se lembrar se esteve na apresentação da proposta.

Já hoje, o secretário de Estado Adjunto Pedro Lomba admitiu «inconsistências problemáticas» no discurso de Pais Jorge e garantiu que o Governo está a «averiguar» a questão, prometendo ainda «todos os esclarecimentos» até ao final do dia.