Até meados de novembro, os últimos comerciantes de um quarteirão na Baixa lisboeta vão deixar as lojas que foram arrendadas durante quase um século para que no edifício pombalino seja construído um hotel de quatro estrelas.

No número 60 da Rua dos Douradores, Guilherme Duran e o filho desmancham a caixotaria que o seu bisavô construiu em 1917. A loja passou para o seu pai e depois para si. «Mas não vou poder passá-la ao meu filho», lamenta.

Guilherme Duran é um dos 20 inquilinos do fundo Corpus Christi, detido a 100% pela seguradora Tranquilidade, que o criou propositadamente e que há cerca de seis meses denunciou o contrato para que naquele quarteirão das ruas dos Douradores, da Vitória, dos Fanqueiros e de São Nicolau seja construído um hotel de quatro estrelas da Intercontinental.

«A culpa é da nova lei das rendas. É uma luta de anões contra o Golias. Há muitos interesses», desabafa Guilherme Duran, enquanto limpa tiras de madeira espalhadas pelo chão.

Para já, e com dinheiro da indemnização da Tranquilidade (a verba vai além do previsto na lei, que equivale a um ano de renda), Guilherme vai juntar-se a outro espaço na zona dos Anjos, mas um dos seus trabalhadores vai para o desemprego.

Ao lado da Caixotaria Duran está, mas já de portas fechadas, a Adega dos Lombinhos. A tasca emblemática de Lisboa completaria cem anos em 2017, mas na quinta-feira, prazo dado à maioria dos inquilinos para deixarem o quarteirão, estava já de portas fechadas.

Na parede que os separa está uma instalação artística em defesa dos espaços quase centenários: no "lombinho cinco estrelas" há duas cadeiras, uma mesa e diálogos escritos na parede como «Com o IVA a 23% lá se foi o freguês» ou «Nem para a Maria, nem para o Manel, deite o lombinho no hotel».

Na esquina da Rua da Vitória, onde a calçada foi substituída por pedra lioz, com a Rua dos Fanqueiros, as montras dos Armazéns Ramos avisam que a loja de pijamas e roupa interior vai encerrar a meio do mês e alertam para as promoções e a liquidação total, bem a tempo de «antecipar as compras de Natal».

A loja está naquela esquina desde 1937 e o atual gerente, Jorge Gonçalves, começou a trabalhar no espaço três anos depois. Hoje tem 86 anos.

Nas lojas vizinhas as montras estão tapadas com cartazes e no interior do espaço vê-se um ou outro móvel ou mercadorias esquecidas.

No número 135, a Associação Portuguesa de Barbearias, Cabeleireiros e Institutos de Beleza arruma agora os últimos dossiês e arquivos para passar para um novo espaço na zona do Areeiro, deixando a Baixa, onde está desde 1936.

A assessora da direção da associação, Cristina Bento, também culpa uma lei do arrendamento feita «a favor dos senhorios», mas critica a perda do «caráter diferenciador» da Baixa.

«Uma coisa era construir um hotel e manter os espaços para o comércio e serviços de tantos anos. Os turistas querem ver o comércio tradicional, ver como é que os locais vivem», afirma.

Em declarações à agência Lusa, Tiago Belo, do Gabinete de Gestão de Imóveis da Tranquilidade, resume que foram cerca de 20 os inquilinos desalojados, dos quais cinco viviam no quarteirão, para construir o hotel da Intercontinental (projeto que foi aprovado pela Câmara de Lisboa há um ano).

Tiago Belo disse que a maioria dos inquilinos já deixou o quarteirão e que os últimos «três ou quatro» vão deixar a Baixa.

«Mas não abandonam a Baixa só pelo projeto, mas eram espaços que sobreviviam artificialmente, porque o preço das rendas era muito baixo. Havia casos de rendas de quatro euros por mês. Não eram sustentáveis e não iam conseguir pagar rendas de mercado», considera.

No entanto, o responsável admite «alguma pena» em despejar alguns espaços quase centenários da Baixa, embora considere que «com a evolução dos tempos» era de esperar que não continuassem na zona.

Com a criação do hotel, que terá pelo menos um restaurante, a Tranquilidade espera que sejam criados pelo menos 100 postos de trabalho.