A administração do Mizuho Financial Group, do Japão, sabia das ligações ilícitas entre aquela instituição bancária e o crime organizado e nada fez para resolver o assunto, acusou esta segunda-feira uma plataforma de advogados japoneses.

O banco Mizuho, uma maiores instituições financeiras do Japão, tem estado sob pressão desde setembro, altura em que foram tornadas públicos os processos de empréstimos de capital concedidos aos sindicatos do crime ligados à máfia japonesa ¿ yakuza - e que podem ter totalizado mais de dois milhões de dólares.

O escândalo tem sido acompanhado pelos jornais japoneses e provocou mesmo uma investigação policial sobre as alegadas relações do banco com o crime organizado.

Entretanto, o relatório elaborado por uma comissão independente constituída por uma plataforma de advogados que foi contratada pelo próprio banco concluiu que «responsáveis e membros da administração tinham conhecimento do assunto, ou ocupavam posições que lhes permitiam ter conhecimento sobre a questão».

O relatório, de mais de cem páginas, refere também que os mesmos responsáveis «falharam por não terem encarado o assunto como um problema».

Por outro lado, um outro relatório interno do banco foi enviado hoje para os reguladores das entidades financeiras em Tóquio, e indica que 54 antigos e atuais membros do banco vão ser punidos, incluindo o presidente do Mizuho, Takashi Tsukamoto, que vai ser mantido no grupo mas vai ser destituído do cargo.

Yasuhiro Sato, presidente executivo do grupo financeiro Mizuho, «que tinha conhecimento dos empréstimos», vai ver o pagamento mensal suprimido durante seis meses enquanto outros responsáveis vão ser sujeitos a cortes salariais como medida disciplinar.

Taro Aso, o ministro das Finanças, disse hoje que as transações ilegais e que envolvem a yakuza são um «grande problema» e criticou as posições iniciais do banco, que em setembro negou aos reguladores conhecimento sobre o assunto.

«Essa é a pior coisa que um banco pode fazer», afirmou o ministro das Finanças.

Mais tarde, o Mizuho admitiu que os altos cargos do banco «encontravam-se em posição de saber» dos empréstimos aos grupos ligados à yakuza.

«Nós causamos muitos problemas a muitas pessoas, incluindo aos acionistas e outros responsáveis» disse Yasuhiro Sato perante as câmaras de televisão enquanto se curvava, num gesto típico dos executivos japoneses quando envolvidos em sérias situações de crise.

«Mais uma vez apresento as minhas mais sinceras desculpas. Nós não nos apercebemos dos empréstimos que estavam a ser executados por uma empresa do grupo», acrescentou o presidente executivo do banco.

Tal como a máfia italiana ou as tríades chineses, a yakuza está envolvida em atividades ilegais relacionadas com jogo, tráfico de droga, prostituição, agiotagem, cobranças difíceis e crimes de colarinho branco através de empresas mantidas como fachada para negócios ilícitos.

A yakuza contemporânea tem mais de cem mil membros, de acordo com dados dos anos 1990, e descende historicamente de grupos do século XVII ligados ao crime organizado, que utilizam uma linguagem própria e são identificados pelo uso de tatuagens em todo o corpo. Os gangs ligados à yakuza são tolerados pelas autoridades e têm interesses em outras partes do mundo, sobretudo no sudeste asiático e Estados Unidos.