Preciosismo de linguagem ou nem tanto. Previsões são previsões, já sabemos, mas o Governo não parece falar exatamente a uma só voz neste campo. Enquanto o primeiro-ministro se mostra bastante otimista, o ministro da Economia parece apenas otimista e o ministro das Finanças é mais cauteloso em relação ao défice, um importante indicador que permitirá aferir o desempenho da economia portuguesa, a par do crescimento, e que terá de convencer Bruxelas.

Primeiro foi a entrevista de Mário Centeno à CNBC: à pergunta sobre o Governo estava a fazer tudo para evitar um novo resgate, o ministro não tocou nessa palavra, mas respondeu que estava a fazer uma série de esforços. Como acabou por não fechar o assunto, a direita logo aproveitou a hipótese no ar.

Depois disso, o primeiro-ministro, António Costa, teve a necessidade de vir esclarecer que "não tem qualquer cabimento falar em segundo resgate" e foi até mais longe prometendo um défice "confortavelmente" abaixo de 2,5%.

Essa é a meta exigida por Bruxelas, mas a Comissão Europeia não acredita que o Governo vá conseguir alcançá-la, estimando que fique nos 2,7%. E aquilo que o Governo tem inscrito quer no Orçamento quer no Programa de Estabilidade é um objetivo de 2,2%.

E, hoje, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, teve um discurso mais genérico. Otimista, mas menos do que o primeiro-ministro, pelo menos na convicção e nos números em que preferiu falar: optou por dizer que "deverá ficar abaixo dos 3%" (onde, de resto, cabem todas as anteriores percentagens). 

Uma das melhores mensagens de estabilidade é toda a gente hoje reconhecer que o défice este ano deverá ficar abaixo dos 3%, perto das metas estabelecidas pelo Governo, e toda a gente, mesmo instituições normalmente muito críticas, reconhecem que deverá ficar próximo do que está definido pela Comissão Europeia. Isto é uma mensagem importante de estabilidade”

Só no final do ano se apurarão as contas certas, mas os níveis de otimismo não parecem ser exatamente iguais no seio do executivo socialista.