A dívida pública portuguesa é insustentável e vai precisar de uma considerável reestruturação, afirmou em entrevista à Lusa o economista e antigo conselheiro do ex-presidente dos Estados Unidos em 1990, George Bush.

Robert Kahn, em Portugal a convite da Embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) e da Universidade Católica para um debate que decorrer hoje com o ex-ministro das Finanças Vítor Gaspar sobre reestruturação de dívida, integra atualmente a equipa de especialistas do think-tank Council of Foreign Relations, e já trabalhou para o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Reserva Federal e para o Departamento do Tesouro dos EUA.

O especialista em gestão de crises da dívida pública defende que toda a periferia da zona euro vai precisar de um perdão de dívida considerável e sugere mesmo a abordagem do Clube de Paris, um grupo informal formado por 19 países desenvolvidos que ajudam financeiramente países em desenvolvimento com dificuldades económicas.

«Não apenas para Portugal, mas penso que em toda a periferia. O enorme aumento da dívida pública é um legado da crise, que muitos países não conseguem financiar através do crescimento. Isso desencoraja o investimento, e a minha experiencia a trabalhar em crises em todo o mundo é que, até termos um plano que consiga mostrar de forma sólida que o país vai conseguir diminuir a dívida até um nível sustentável no futuro, é difícil sair desta armadilha de baixo crescimento económico. Penso que Portugal vai precisar muito de uma real reestruturação de dívida. Acho que a dívida atualmente não é sustentável», afirmou Robert Kahn.

O especialista considera que a atenção dos decisores políticos ainda está numa solução dos problemas de financiamento dos países através de uma presumida capacidade de um bom desempenho nas políticas e nos programas acordados para reduzir os desequilíbrios macroeconómicos e estruturais das economias vir a ter efeitos positivos nas taxas de juro cobradas pelos mercados.

No entanto, Robert Kahn considera que isso só lida com a situação de tesouraria dos países, e que para as perspetivas melhorarem de forma sustentável é necessária uma reestruturação de dívida destes países, que segundo a sua opinião, os credores têm tendência para adiar durante demasiado tempo e aplicam-na por princípio já demasiado tarde.

«Há algum debate nos circuitos oficiais que, se os programas continuarem a ter um desempenho muito bom então podem ter taxas de juro mais baixas, mas penso que o foco desse tipo de discussões está demasiado no alívio em termos de tesouraria. Acho que isso não será suficiente, temos de lidar também com o stock de dívida. (...) Como vimos na Grécia, há a tendência para esperar demasiado tempo para fazer a reestruturação», afirmou.

A abordagem do Clube de Paris (formado em 1956), explicou o antigo chefe do gabinete para as nações industrializadas do Departamento do Tesouro onde trabalhou para Larry Summers e Timothy Geithner, permite reduzir a dívida pública através de um perdão da dívida entre países apenas.

O Clube de Paris estabelece uma data de corte, até à qual a dívida pública contraída pode ser alvo de reestruturação, mas também impõe condições para esta acontecer. A partir dessa data a nova dívida passa a ser da exclusiva responsabilidade do país.

Ainda assim, diz, esta opção tem sempre o estigma de aplicar soluções que só costuma ser utilizada para países em vias de desenvolvimento.

«Os meus amigos europeus ficam sempre chateados quando levanto esta hipótese porque não gostam da analogia com países em vias de desenvolvimento, mas a ação do Clube de Paris tem relevância», afirma.