O presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Carlos Tavares, revelou no Parlamento que o supervisor sofreu «as maiores pressões» por parte dos assessores financeiros para acelerar a aprovação do prospeto do aumento de capital do BES.

CMVM preocupada com estabilidade do BES

«A CMVM teve as maiores pressões, nomeadamente, por parte dos assessores que trabalharam na operação, para aprovar o prospeto o mais rápido possível», adiantou o responsável numa comissão parlamentar dedicada à situação no Grupo Espírito Santo (GES), do qual o Banco Espírito Santo (BES) é o principal ativo.

«Foi-nos dito que, caso contrário, haveria centenas de milhares ou mesmo milhões de euros de prejuízo», sublinhou, assegurando que «a CMVM não aceitou as pressões».

Daí, o prospeto do aumento de capital do BES, cuja publicação foi considerada um «momento crítico» pelo líder do supervisor, ter sido «publicado mais tarde do que era suposto», contando com 35 páginas dedicadas à enumeração dos riscos associados às várias entidades do GES a que o banco então liderado por Ricardo Salgado está exposto.

«Pela primeira vez constava informação sobre os acionistas do banco», assinalou Carlos Tavares, explicando que o supervisor considerou que «aquilo que fosse importante e grave para um acionista do banco, era importante para o próprio banco e para o preço das suas ações».

O presidente da CMVM disse que este pode ser considerado um «caso de escola», já que, apesar de os inúmeros riscos relacionados com o investimento nas ações disponíveis no âmbito do aumento de capital estarem elencados, «apesar disso, a operação foi subscrita na totalidade».

«A CMVM só tem que aprovar um prospeto. Não pode impedir um aumento de capital deliberado pelos acionistas», realçou, acrescentando que o supervisor só pode «obrigar a publicar tudo» o que sabe «que existe» sobre a entidade em causa.

Os vários riscos enumerados no prospeto do aumento de capital do BES foram identificados «muito graças» à colaboração da CMVM com a sua congénere luxemburguesa, sublinhou.

O Espírito Santo Financial Group (ESFG), o principal acionista do BES com 20,1%, tem sede no Luxemburgo, país onde está cotado na praça acionista, a par do mercado português, mas «o mercado mais líquido da ação ESFG é em Lisboa», disse.

«Daí sermos nós os responsáveis pela comunicação ao mercado», justificou.

«Para além da informação que está no prospeto, poucos dias depois, foi publicado um comunicado do ESFG, antes do período de irrevogabilidade das ordens. Foi um momento importante», considerou Carlos Tavares.