É o relato do contabilista a um escritório de advogados non Luxemburgo, em Março de 2014. Depois de interrogarem Machado da Cruz os juristas ficaram sem dúvidas de que havia indícios de crime, e que a ESI estava à beira da falência. O parecer foi pedido pela holding da família Espírito Santo.

 E no interrogatório o contabilista Machado da Cruz, de que todos falam, descreve como manipulou as contas do grupo. Mas garante que além se Ricardo Salgado, mais membros do Conselho Superior sabiam do passivo oculto nas contas.

Três dias depois do interrogatório o escritório com as conclusões e algumas transcrições das frases de Machado da Cruz.

No documento a que a TVI teve acesso, a conclusão dos advogados não deixa margem para dúvidas. Por um lado, aconselham a apresentação de uma «queixa-crime no Ministério Público do Luxemburgo por sérios indícios de falsificação no que respeita à elaboração das contas oficiais da ESI de 2008 até agora».

Por outro, para os advogados a situação de pré-falência da ESI é evidente e aconselham a que sejam tomadas «medidas adequadas para implementar a proteção pré-insolvência, em particular, a gestão controlada na ESI e outras empresas do grupo». O que, aliás, acaba por acontecer meses depois, antes do colapso do BES.

Mas neste documento vale ainda a pena confrontar as declarações de Machado da Cruz, com o que disse Ricardo Salgado na comissão de inquérito parlamentar ao BES.

Salgado garantiu na comissão, no passado dia 9 de dezembro, que foi "apanhado de surpresa” pela informação de que as contas estavam a ser manipuladas desde 2008; já o contabilista garante que tanto Salgado como José Manuel Espírito Santo Silva e Manuel Fernando Moniz Galvão Espírito Santo Silva – outros dois membros do conselho superior – sabiam que as contas não eram verdadeiras.

Mas mais: Machado da Cruz revelou aos advogados do escritório do Luxemburgo que apresentou a demissão a Ricardo Salgado em janeiro de 2014 e que o ex-banqueiro lhe pediu para não se demitir de funções «até ao fim da auditoria e disse-lhe ainda que para tal receberia uma compensação financeira», como se pode ler nos documentos.

Aliás, este relatório sobre a inquirição de Machado da Cruz só chegou ao Banco de Portugal um mês depois, em Maio, pela mão de José Maria Ricciardi, que se queixa desta informação lhe ter sido escondida. E é impelido a enviar uma carta ao Banco de Portugal que enquadra o documento com as declarações do contabilista, porque Salgado tinha, dias antes, dado uma entrevista ao «Jornal de Negócios», na qual partilhava a responsabilidade da má situação financeira das empresas do GES pelos cinco ramos da família Espírito Santo.