Um leilão aquém das expectativas. Mesmo com a turbulência dos mercados, desiludidos com a inação do BCE, que este mês manteve as taxas de juro inalteradas, o Estado português arriscou uma emissão de dívida de longo prazo. E com duas linhas, uma delas nada comum: um empréstimo para pagar só daqui a 20 anos. Apenas conseguiu o financiamento previsto, de 750 milhões de euros.

O objetivo era arrecadar até 1.000 milhões e a procura até superou a oferta em ambas as linhas, a 7 e 20 anos, mas os juros pesaram. Daí o Tesouro não ter contraído o empréstimo total pretendido.

No praxo mais longo, foram colocados apenas 250 milhões de euros em Obrigações do Tesouro. A taxa subiu bastante, de 3,23% na última emissão com as mesmas características, para 4,04%. 

Na operação com vencimento daqui a sete anos, o financiamento obtido foi de 500 milhões. O mesmo cenário nos juros a pagar, com um agravamento de 2,355% para 2,817%. 

A procura superou a oferta em ambos os caos: 2,65 vezes a 20 anos (vs. 1,85 vezes na última emissão); 1,68 vezes (vs. 1,46 vezes em julho, quando foi realizada uma emissão semelhante).

No mercado secundário, os juros da dívida a 10 anos, aqueles que são tidos como referência, tem estado a rondar os 3,3%, ainda sem grande alteração depois de conhecidos estes resultados.

Os fatores de risco que pesam

Este leilão de dívida acontece a dois dias da revisão de rating por parte da Standard & Poors, que ainda mantém Portugal no chamado lixo.

Também a Moody's dá nota negativa ao país, desaconselhando o investimento, mas ainda ontem veio dizer que o risco de um segundo resgate é baixo. Isto numa altura em que há alguma especulação à volta de o assunto, que levou o ministro das Finanças a ser questionado pela CNBC. Mário Centeno deu garantias de que está a fazer tudo para que não venha a acontecer.

Apenas a agência DBRS dá nota positiva ao rating de Portugal, mas já avisou que a parca expansão do Produto Interno Bruto (PIB) está a colocar pressão sobre a avaliação do país. Um veredicto que será conhecido em outubro.

“Desde a passada quinta-feira, quando Mario Draghi se absteve de anunciar ou indicar qualquer alteração da actual política monetária, que o comportamento das yields [taxas de juro] soberanas tem apresentado uma tendência de subida generalizada. Simultaneamente, os receios em torno da avaliação da agência de rating DBRS em Outubro também consiste num factor de algum risco presente na evolução das yields portuguesas", destaca à TVI24 Marisa Cabrita, gestora de activos da Orey Financial.

Comparativamente a anteriores leilões das mesmas linhas, embora se tenha verificado uma procura mais robusta, as yields foram superiores, registando ambas as maturidades valores não observados desde Junho deste ano no mercado secundário".