"Na linha para serem resgatados (...) pode haver o caso do BCP, da Caixa e de um banco mais modesto e que pode ficar caríssimo também"

Estas palavras de João Salgueiro, ditas em entrevista à Antena 1, encontraram eco nos restantes meios de comunicação social e nas redes sociais. O ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos e ex-ministro das Finanças esclareceu depois, na TVI, que as suas palavras não devem ser tomadas à letra, embora tenha enumerado aqueles três casos de foma consciente: "Foi intencional: os três maiores bancos têm problemas diferentes".

"Tomado à letra, se interpretarmos resgate no sentido que a UE tem interpretado não é possível porque cada caso é um caso. Nestes três são casos diferentes", começou por retificar. O que queria então dizer?

"Há problemas para resolver e que devemos resolvê-los intervindo ativamente na sua solução. (...) Vamos ficar pior se não estivermos atentos ao que se passa. Os portugueses pensam que que é so má gestão, há um quadro que pode ser muito negativo"

CGD: reforço de capital

Quanto à Caixa Geral de Depósitos, o ex-ministro das Finanças entende que o problema é que precisa de reforço de capital e que é, de resto, obrigação do acionista fazê-lo. Só que a União Europeia não permite, o que Salgueiro condena.

"Não tem direito para isso. Não há nada que diga nos tratados que deva discriminar contra as empresas públicas ou a favor. Não é ajuda reforçar [o capital], é uma obrigação [do Estado]"

BCP: bloqueio de estratégia própria

Embora tenha incluído o BCP no pacote dos bancos críticos, ex-presidente da APB teceu vários elogios à instituição liderada por Nuno Amado, dizendo que o Banco Comercial Português tem feito uma "recuperação exemplar no sentido de ganhar valor, inspirar crediblidade, tem vindo a amortizar a dívida e está perto de concluir essa operação se lhe derem a condições para isso".

O problema é a falta de independência do banco porque ainda não reembolsou a totalidade do empréstimo feito na altura da troika pelo Estado - embora pretenda concluí-lo ainda este ano - a estratégia do banco. "Enquanto estiver sob o efeito do auxílio que teve durante dois anos não pode ter estratégia própria", lamenta João Salgueiro, dando o exemplo da corrida ao Novo Banco, à qual o BCP pode encontrar obstáculos por causa disso mesmo.

"Isto é inaceitável no sistema bancário português em que, porventura, o BCP tem interesse em participar. Por exemplo, se o BCP for candidato ao Novo Banco, valoriza-se o Novo Banco e valoriza-se a si próprio. Se não puder fazer isso, ficamos sujeitos a que haja uma proposta só ou duas"

Novo Banco: vender à pressa

Quanto ao Novo Banco, o dinamizador do novo manifesto sobre a banca, que tem como objetivo adiar o prazo de venda deste banco bom que resultou da resolução do BES, para 2019, defende que é preciso ter calma para que o banco não perca valor. 

"Precisa de tempo. Já viu a demissão da equipa do Dr Vitor Banco, que foi muito bem escolhida? Convidaram-no para ajudar a restaurar a confiança e a qualidade do banco e depois disseram-lhe 'venda a qualquer preço para a semana'. Isto não se pode fazer. Fez muito bem em dizer 'não contem comigo' e sair"

A nacionalização à 'sueca' ou como casos na Irlanda ou Inglaterra poderão ser opções. Mas com tempo para decidir. "Não sei quem é que quer que se resolva em semanas uma coisa que leva anos a desenvolver".

Linhas vermelhas quanto aos limites da intervenção europeia que as há, há. Ou devia haver, na ótica de João Salgueiro: "Primeiro, termos uma ideia clara do que queremos, não temos tido.... O Banco de Portugal e o Ministério das Finanças não se entendem, para começar, e depois nunca se sabea  relação com Bruxelas.