O ex-presidente do BPP, João Rendeiro, admitiu que tem acompanhado atentamente o desenrolar dos trabalhos da comissão de inquérito parlamentar ao caso Banco Espírito Santo (BES), considerando que as audições não têm sido pautadas pelo rigor e verdade.

«Acho que as pessoas não vão lá dizer a verdade. Assumem uma postura muito defensiva», afirmou o antigo banqueiro, fundador do Banco Privado Português (BPP), que, a exemplo do Banco Espírito Santo (BES), também foi intervencionado pelas autoridades estatais, mas em 2008.

«Tenho achado que umas narrativas anulam as outras. E é nesse cruzamento de informações que é possível perceber o que poderá ter acontecido», realçou aos jornalistas Rendeiro, à margem da apresentação do seu livro «Arma Crítica», no Grémio Literário, em Lisboa.

Rendeiro considerou ainda que, face à importância do BES e do Grupo Espírito Santo (GES) na economia portuguesa, «é muito importante que aconteça a descoberta da verdade» sobre as razões que levaram ao colapso do império Espírito Santo.

Certo é que, segundo o responsável, que enfrenta diversos processos judiciais e contraordenacionais nos tribunais devido à queda do BPP, «a responsabilidade das pessoas que estavam à frente dos bancos» que faliram «é diferente».

E realçou: «Cada um tem que responder por si e a Justiça vai apurar responsabilidades».

Segundo Rendeiro, é importante distinguir «quem assumiu os problemas e colaborou com as autoridades, para resolvê-los, e quem os ocultou».

Sobre os processos que tem contra si, Rendeiro disse apenas aguardar «serenamente» pelos seus desenvolvimentos.

O antigo presidente do BPP acusa o supervisor de «falta de bom senso» por deixar Salgado na liderança do BES depois de conhecer os problemas no GES.

«O Banco de Portugal devia ter afastado o presidente executivo do Banco Espírito Santo (BES) logo no verão de 2013, mal se conheceu que havia problemas graves no Grupo Espírito Santo (GES)», afirmou aos jornalistas o ex-banqueiro, à margem da apresentação do seu novo livro «Arma Crítica», em Lisboa.

E reforçou: «Não foi ele [Carlos Costa] que criou a situação, mas um regulador tem que atuar de forma a resolver os problemas. Foi de uma grande falta de bom senso colocar [Ricardo Salgado] a proteger o BES do risco do GES».

Na origem do colapso do império Espírito Santo ainda está, segundo Rendeiro, «como pano de fundo, a crise financeira de 2008», apesar de a resposta só surgir em 2013/2014, conforme sublinhou.

João Rendeiro considerou que o BES devia ter solicitado apoio estatal para se recapitalizar, a exemplo do que fizeram os seus pares BCP, Banco BPI e Banif.

Como não o fez, acabou por cair, originando «um dano muito grave para Portugal, afetando e muito a reputação do país e do sistema financeiro», comentou.

No seu livro hoje lançado, ao longo de mais de 500 páginas, Rendeiro não poupa críticas aos principais agentes políticos e aos supervisores pela situação a que Portugal chegou.

Os principais alvos são o antigo primeiro-ministro José Sócrates, o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), mas Rendeiro também aponta o dedo ao primeiro-ministro, Passos Coelho, e a José Maria Ricciardi, um dos membros da família Espírito Santo.