A ex-ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite afirmou que Portugal é hoje um país pobre, sem jovens e sem futuro, apesar de ter cumprido o acordado no memorando de entendimento com a troika.

«Cumprimos tudo, mas há uma resposta que não foi dada: o que acontece às pessoas, onde estão os jovens, onde está o Estado social, é que não há resposta para isto», disse a ex-governante, no Fórum das Políticas Públicas 2014, a decorrer em Lisboa.

«Temos uns país pobre, sem jovens e sem futuro. Se não é isso que queremos, algo está mal. Quer dizer que as regras europeias não estão a condizer com o espírito do Estado social», afirmou.

Manuela Ferreira Leite criticou o empobrecimento do país e do Estado social, e disse que Portugal é hoje «um país sem jovens e sem futuro», e apelou para uma discussão aberta sobre o Estado social.

O Estado social «revela-se muito caro e temos de o discutir», defendeu, acrescentando que a discussão «não pode resumir-se às regras» e criticando o atual entendimento que está muito baseado no cumprimento de normas.

«É a mesma coisa que dizerem que vai fazer uma cirurgia, mas o paciente também quer saber qual a sua qualidade de vida» depois da operação, explicou.

A ex-ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite afirmou ainda esta quarta-feira que Portugal vai sair do processo de ajustamento, não porque tenha atingido os objetivos impostos pela troika, porque há outros países da União Europeia com mais dificuldades que Portugal.

«Vamos sair do processo de ajustamento, não porque tenhamos atingido os objetivos, mas porque há outros países em situações piores que as nossas», disse em Lisboa, no Fórum das Politicas Publicas.

Manuela Ferreira Leite criticou ainda o processo de ajustamento, dizendo que «não foi avaliada de forma correta a situação do pais», nomeadamente quanto ao facto de a estrutura produtiva ser baseada em pequenas e médias empresas e de o endividamento não ser só do Estado «mas também, e especialmente», das empresas, como reporta a Lusa.

A ex-ministra disse ainda ser um «erro básico» o período «irrealista» definido para o programa de ajustamento e lembrou que a recessão económica acabou por ser «superior ao que se previa».

Admitindo que o processo de ajustamento «provavelmente não podia ter sido outro», Manuela Ferreira Leite defendeu no entanto que fazer uma correção orçamental em recessão «é inviável» e defendeu que o país chegou ao fim do período de ajustamento e «não tem correção orçamental».

«Aliás, há alguma [correção orçamental], mas não é proporcional às medidas tomadas para esse objetivo», disse, lembrando o efeito das medidas de austeridade.

Algumas reformas estruturais feitas pelo atual Governo foram «realçadas» pela antiga ministra, como as privatizações, a saúde, a lei do arrendamento, mas defendeu que há aspetos importantes do ponto visto estrutural que não foram efetuados, como a reforma da administração pública, que disse ter ficado resumida a alterações nas freguesias, ou a falta de «mexidas» no setor da energia.