O presidente do Novo Banco não sabe quem são os interessados em comprar a instituição financeira a que o próprio preside. Eduardo Stock da Cunha não conhece a lista do Banco de Portugal, assumiu aos deputados da comissão de inquérito ao Grupo Espírito Santo e ao Banco Espírito Santo.

Foi no último dia do ano de 2014 que o supervisor da banca anunciou que existiam 17 interessados no Novo Banco. Mas não divulgou publicamente os nomes que constavam nessa lista, nem a cedeu, em privado, a Stock da Cunha.

«Não foi disponibilizada a lista dos 17, a mim. Quem conhecerá a lista dos 17, ou 16 ou 15, será o Banco de Portugal ou o intermediário financeiro»


Mesmo em relação ao interesse declarado, publicamente,  pelo BPI e Santander, Stock da Cunha disse apenas: «Eles disseram? Não tenho nenhuma lista em mão a dizer que são os 17», ironizou, respondendo à deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua. 

O presidente do Novo Banco explicou, ainda, que quem decide a venda é o Banco de Portugal. Questionado sobre os prazos, disse que o objetivo é que a venda concretize «algures no segundo trimestre deste ano». Assumiu que será preciso um «esforço grande» para conseguir, «mas é possível». 

Mariana Mortágua aproveitou para perguntar se Stock da Cunha não considerava «estranho» que dois dos interessados, Santander e BPI, pretendam ter mais tempo para devolver ao Estado o dinheiro injetado no Fundo de Resolução, como tem vindo a ser noticiado. «Na prática estão a assumir que o Banco não vai ser vendido no curto prazo ou, se for, vai ser vendido por valor inferior», disse a deputada, para interpelar o líder do Novo Banco.

«Parece-me interpretação um pouco lata. Se cai um deles, um tem todo o interesse em protelar esse pagamento. Não acho bom ou mau. Não sei se dizem genuinamente, se fazem bluff, se é por tática. Nem tenho conhecimento», respondeu apenas.

Na sua audição, Stock da Cunha disse que a situação do Novo Banco é, seis meses depois, «bastante razoável», tendo usado uma imagem para clarificar: «Passámos dos cuidados intensivos para a sala de observações».

Stock da Cunha explicou, depois, que  o banco não tem «obrigação legal» de compensar os clientes que investiram em papel comercial, mas vai tentar fazê-lo, desde que isso traga «vantagens» para a entidade financeira. A provisão para acautelar o risco desse investimento, que o Banco de Portugal disse aos clientes ter passado para o Novo Banco, não passou. Ficou no BES, garante Stock da Cunha, confirmando o que o próprio presidente do banco tóxico, que para todos os efeitos ainda existe, também esclareceu no Parlamento, contrariando o supervisor. 

A propósito, quatro membros da Associação Os Indignados e Enganados do Papel Comercial, que queriam assistir à sua intervenção,  não foram autorizados a entrar, mas  tiveram uma reunião com o presidente do Novo Banco, numa sala ao lado.

Já sobre a queda da garantia de Angola, fez notar que o Novo Banco nasceu no dia 4 de agosto, sem essa garantia, e   empurrou responsabilidades sobre o assunto para o Banco de Portugal. Quanto à venda da PT Portugal, onde o Novo Banco detinha uma participação de 12,6%,  aos franceses da Altice, a decisão do voto favorável foi do conselho de administração, mas   esteve sujeita ao crivo do Banco de Portugal