George Soros teme o pior se o Reino Unido sair da União Europeia. Ele, que é o mais famoso especulador de moeda do mundo, receia que a libra possa desvalorizar até 20% com o Brexit e avisa que isso só fará enriquecer ainda mais os especuladores e não o povo, que ficará mais pobre. Junta-se, assim, ao coro de alertas anti-Brexit, tentando chamar a atenção dos britânicos para as consequências que tal decisão teria para a economia e, por essa via, para as pessoas.

"Os eleitores britânicos estão agora a subestimar grosseiramente os verdadeiros custos de sair [da União Europeia]. Muitos acreditam que o voto de deixar a UE não terá nenhum efeito sobre a sua situação financeira pessoal. Essa é uma ilusão. Teria, pelo menos, um efeito muito claro e imediato que vai tocar todos os lares: o valor da libra cairia vertiginosamente. E também teria um impacto imediato e dramático nos mercados financeiros, investimentos, preços e empregos".

Ele próprio apostou na queda da libra em 1992, na conhecida quarta-feira negra que obrigou o Reino Unido a sair do Mecanismo Europeu de Taxa de Câmbio. Só nesse dia o Banco de Inglaterra perdeu três mil milhões de libras. Mas hoje a situação é diferente, defende.

 “Hoje, existem forças especulativas nos mercados muito maiores e mais potentes. E estarão ansiosos para explorar quaisquer erros de cálculo do Governo ou dos eleitores britânicos. Um voto pelo Brexit faria algumas pessoas muito ricas - mas a maioria dos eleitores ficaria consideravelmente mais pobre”.

Soros dá um exemplo para ilustrar este seu alerta, num artigo que escreveu na segunda-feira à noite no jornal britânico The Guardian, dizendo que nesse cenário o custo das importações e as férias no estrangeiro subiriam rapidamente como já aconteceu em crises passadas e que os “verdadeiros padrões de vida” das pessoas caíriam. Enquanto isso, os especuladores financeiros, na volta, estariam a “lucrar às custas do Reino Unido”.  

"Sexta-feira negra"

O que está em causa agora, antecipa, é algo de consequências ainda mais nefastas do que há quase 25 anos, quando ele próprio apostou na queda da libra e ganhou. E em vez de uma quarta-feira negra, o dia a seguir ao referendo poderá ser uma “sexta-feira negra”, nas suas palavras. Soros invoca três motivos para esta dramatização.

Primeiro, o Banco da Inglaterra não deverá cortar as taxas de juro após uma desvalorização decorrente do Brexit, porque elas já estão no nível mais baixo compatível com a estabilidade dos bancos britânicos.

“Isso, aliás, é mais um motivo para nos preocuparmos com o Brexit. Se uma queda nos preços das casas e perda de postos de trabalho resulte numa recessão pós-Brexit, como é provável, haverá muito pouco que a política monetária possa fazer para estimular a economia e combater a consequente perda de poder de compra”

Em segundo lugar, o Reino Unido tem agora um déficit em conta corrente “muito grande - muito maior, relativamente, do que em 1992 ou 2008”. Soros faz notar que o país é “mais dependente do que em qualquer momento na história” no que toca ao capital estrangeiro. 

Em terceiro lugar, seria “improvável” que a desvalorização da moeda  favorecesse as exportações já que as condições de negociação seriam “demasiado incertas” para que as empresas britânicas olhassem para novos investimentos, contratassem mais trabalhadores e tivessem maior capacidade de exportação.

Soros quis assim chamar as pessoas à atenção para as “graves consequências” do Brexit antes de os britânicos exercerem o seu direito de voto no referendo de quinta-feira, 23 de junho.