Por que é que a garantia do Banco Nacional de Angola ao BES Angola, superior a 3 mil milhões de euros, caiu e, com isso, o fundo de resolução teve de injetar muito mais dinheiro no Novo Banco? Culpa do Banco de Portugal, defendeu o ex-presidente do BESA, na comissão de inquérito sobre o colapso do Banco Espírito Espírito Santo e do grupo, no seu todo.

«Quem disse que havia um elevado grau de incumprimento?». «Não houvesse a crise do BES e do GES não havia esse problema [da garantia]. Houve a decisão de elevar um crédito a total imparidade. De repente o banco diz, 'tem de pagar a casa por inteiro' e eu não tenho tesouraria para fazer face a isto»

Álvaro Sobrinho comparou por duas vezes o que se passou a um crédito à habitação. Seria suposto pagar o empréstimo em 10 anos, de 2008 até 2018. Exigir que se pagasse de imediato, era uma decisão impossível de acatar. Daí a garantia estatal ter caído. E o BES ter-se afundado ainda mais.

Ora, quem decidiu dividir o banco em dois: um bom, o Novo Banco e um mau, tóxico, foi  o Banco de Portugal, lembrou o ex-presidente do BESA. Foi a equipa liderada por Carlos Costa que decidiu fazer um ajustamento às contas na altura da medida de resolução e, por isso, ficaram 3 mil milhões por pagar.

«A 30 de julho, na altura da publicação contas, que leva à falência do BES, em nenhum momento que leva ao processo de resolução aparece o BESA», disse, citando que, nesse ajustamento, o BESA aparecia apenas com 251 milhões de euros. Já a 3 de agosto, no novo ajustamento, já entra o BESA, com 2750 mil milhões.

«Por que é que se mete aqui o BESA no ajustamento? Essa foi uma decisão das entidades de supervisão. O BESA tinha maturidade para o vencimento da linha de crédito até 2018. A antecipação levou a este ajustamento»


Antes, já tinha usado a mesma comparação para explicar o que se passou, respondendo a Cecília Meireles (CDS-PP): « O capital, na ficha técnica que existe, é para ser reembolsado só em 2018. O Banco Espírito Santo serve não uma liquidez no mercado monetário, mas serve uma linha renovável que tem uma maturidade de 2008 a 2018. É o mesmo que a senhora deputada comprar uma casa e está a pagá-la em 20 anos. E de repente o banco diz-lhe para pagar tudo na totalidade».

Já na segunda ronda, afirmou que «também podia dizer outras coisas» aos deputados»: «O Grupo Espírito Santo e o Best chegaram a ter 6 mil milhões de euros aqui depositados durante anos», do Estado angolano. Aqui, leia-se, em Portugal. E não foi por isso que «alguma vez iria utilizar os problemas do BES e no GES» como moeda de troca, salientou, sem especificar, no tempo, se na altura do colapso ainda tinha ou não esse ou algum montante relevante investido no Banco Espírito Santo em Portugal. 

«BES não faz operações para perder»

Álvaro Sobrinho, que no início da sua intervenção advertiu os deputados que não ia fazer «achincalhamentos pessoais seja de quem for», acabou por utilizar um adjetivo mais pejorativo para caraterizar a atitude de Ricardo Salgado, quando este disse que a cunhada de Álvaro Sobrinho era responsável pelo crédito no BESA: «Ela não era responsável, era o comité de crédito. Esse comité tinha várias áreas e tinha presente a comissão executiva. A minha cunhada nunca mudou de área, foi sempre da área comercial. Acho isso delegante», considerou.

E, quis reforçar, o crédito ao BESA era um «bom negócio» para o Banco Espírito Santo, em Portugal:  «O BES, como qualquer instituição, não faz uma operação para perder». O BESA pagava 200 milhões de dólares por ano em juros, o que tinha «cerca de 20% de impacto no BES». Isso «contribuía imenso para os ganhos do grupo cá em Portugal». Sobrinho garantiu, de resto, que os 3 mil milhões de euros emprestados pela casa-mãe à estrutura angolana nunca saíram de Portugal. Ou seja, basicamente, frisou, o BESA funcionava como «multibanco» do BES. 

Sobre a «surpresa» de Salgado em relação à «situação pavorosa» em que se encontrava o BESA - palavras do próprio -, dado o elevado endividamento e fraca base de depósitos do banco angolano, Álvaro Sobrinho desmente a versão de desconhecimento reportada pelo ex-patrão do BES na comissão de inquérito: «Se houve surpresa, então éramos todos incompetentes», ironizou.

«Eu não sou vítima de nada»


Quanto às suas próprias responsabilidades, no início da audição disse que as assumia, mas não especificou. Admitiu apenas que a estratégia de gestão do BESA podia ser «questionada». Mariana Mortágua (BE) disse que as audições da comissão de inquérito têm sido marcadas por «várias vítimas», que apontam «um malfeitor». «O problema da sua versão de vítima é que não há um malfeitor. Há uma cabala de quem contra si?», questionou.
 
Álvaro Sobrinho respondeu: «Em nenhum momento desta comissão me senti vítima. Sempre disse que era o responsável. O facto de ironizar não quer dizer que me senti vítima. Nunca falei contra pessoas que falaram contra mim. Estou a justificar decisões de gestão do BESA sobre a minha responsabilidade. Cabe aqui avaliar se foram boas ou más. Eu não sou vítima de nada», rematou.

OS PRINCIPAIS TÓPICOS DA AUDIÇÃO DE ÁLVARO SOBRINHO, AO MINUTO