A agência de notação financeira Moody's advertiu esta segunda-feira que os gastos contínuos do Governo japonês nas fugas de radiação em Fukushima e compra de hidrocarbonetos constituem um fator negativo para a dívida soberana do Japão.

Em comunicado, a Moody's aponta que o anúncio, na semana passada, do Governo japonês de que irá investir 47.000 milhões de ienes (357 milhões de euros) num plano de emergência para controlar as fugas de água contaminada em Fukushima figuram como um «crédito negativo para a dívida soberana» da terceira economia mundial.

«Os 47.000 milhões de ienes, apesar de serem apenas 0,01 % do PIB [Produto Interno Bruto] de 2012, são um dos inúmeros gastos elevados que o Governo parece que terá de assumir para desmantelar e descontaminar Fukushima», detalha a Moody's.

O principal problema com que se depara atualmente o Japão na crise nuclear prende-se com a enorme acumulação de água altamente radioativa nos porões dos reatores, que aumenta em cerca de 400 toneladas diárias devido aos aquíferos, vazando para o mar.

Da verba global, aprovada NO dia 03 face às graves fugas de radiação, 32.000 milhões de ienes (243 milhões de euros) vão ser canalizados para um sistema experimental com vista a congelar o solo em redor dos edifícios dos reatores e bloquear a fuga de água subterrânea nas unidades.

Ao aumento dos fundos públicos para custear os imprevistos em Fukushima, soma-se, segundo a Moody's, o risco que acarreta para a balança comercial a compra, cada vez maior, de hidrocarbonetos para gerar eletricidade nas centrais termoelétricas, dado que as nucleares foram quase na sua totalidade desativadas na sequência do acidente de 11 de março de 2011.

«A pressão popular mantém as centrais nucleares encerradas», o que bloqueia o plano do Governo nipónico de reiniciar a atividade das centrais nucleares «a fim de poder fornecer um abastecimento de energia elétrica estável e económico», refere a agência em comunicado, citado pela Efe.

Tal, constata a Moody's, fez com que se tornasse necessário «importar hidrocarbonetos e elevar o custo energético, impedindo a indústria de crescer e dificultando o clima de investimento».

Neste contexto, «enquanto Fukushima continuar a liderar as manchetes com notícias de aumento dos níveis de radiação e de fugas de água contaminada para o oceano Pacífico, a recusa do cidadão em reiniciar os reatores manter-se-á», de modo que o Japão «irá elevar a sua pressão sobre a balança comercial», aponta a agência de notação financeira.

Em julho, o Japão obteve um défice comercial de 1,02 biliões de ienes (7.740 milhões de euros), com o qual acumulou mais de um ano consecutivo com saldo negativo face ao aumento constante das importações, sobretudo de hidrocarbonetos, cujas compras cresceram 20,7% em termos anuais.

Segundo a Moody's, apesar de a balança da conta corrente se manter com um ligeiro excedente, uma mudança para terreno negativo «indicaria uma reversão líquida nas poupanças da economia do Japão», algo que, no entanto, não se estima que suceda no dentro de um ou dois anos.