Francisco Machado da Cruz está a colocar tudo em pratos limpos, na comissão de inquérito ao BES / GES, esta quinta-feira. Ao que a TVI conseguiu apurar, o contabilista do Grupo Espírito Santo confirmou aos deputados ocultação do passivo da Espírito Santo Internacional, pelo menos desde 2008. E disse que a ideia foi de Ricardo Salgado. Uma versão diametralmente oposta daquela contada pelo ex-presidente do BES, que disse aqui mesmo, no Parlamento, que nunca deu instruções nesse sentido e culpou precisamente o contabilista por tudo.

Agora, Francisco Machado da Cruz reconhece que, de facto, era o responsável pela contabilidade da ESI e confirma que, entre 2008 e 2012, houve uma acumulação de passivo na ordem dos 1,3 mil milhões de euros. Até detalhou os montantes aos deputados. E o que era para ter sido alvo de um stop, logo em 2008, não mais parou.

Quem teve a ideia da ocultação terá sido, logo desde o início, Ricardo Salgado, acusou. Machado da Cruz, o que que terá feito, segundo explicou, foi apresentar as contas consolidadas ao ex-presidente do BES. Assegura, portanto, que foi tudo por ordem de Salgado e que ele sabia de tudo.  

Por que é que o GES tomou essa opção de esconder as contas, a partir de 2008? Ora, a explicação estará, segundo Machado da Cruz, na crise do sub-prime, porque o GES tinha obrigações a longo prazo nessa altura. O grupo estaria a registar perdas significativas.

O contabilista terá acreditado em Salgado, que terá expressado a sua confiança em que tudo se iria resolver. Explicou aos deputados que o GES funcionava na base da palavra e honra das pessoas. E que ele acreditava que era assim.

Assegurou, por outro lado, que apesar da maquilhagem das contas, ninguém roubou um euro que fosse do passivo de 1,3 mil milhões. E que a bola de neve continuou, mas não terá sido por falta dos seus avisos de que seria preciso falar.  Terá chamado a atenção a Ricardo Salgado, a José Manuel Espírito Santo e a José Castella (o controller financeiro que foi ouvido ontem e que se esquivou às perguntas como pôde).

A «obediência» a Salgado

Mostrando-se hoje «muito arrependido» perante o que fez, não tendo «orgulho de nada», Machado da Cruz explicou aos deputados que fez tudo o que fez não a pensar nele próprio, mas no grupo. Por «lealdade e obediência». 

O chamado commissaire aux comptes acabou por enviar uma carta ao Conselho Superior do GES a 7 de janeiro de 2014, a que a TVI teve acesso, considerando que era melhor demitir-se das suas funções, por estar a alegar um «erro», que os auditores não aceitavam «existir sem responsáveis». Por isso, viu-se «forçado» a assumir tudo «pessoalmente». Fê-lo por «absoluta lealdade» aos seus «superiores hierárquicos e ao grupo»- Uma missiva que foi enviada agora à comissão de inquérito. Aos deputados, garantiu que queria ter dito a verdade aos advogados do Luxemburgo, mas Salgado terá exigido que fosse com a versão do «erro» até ao fim.

Era era próprio, o contabilista, quem assumia, desde 2008, as responsabilidades pelas contas mas, decorridos já vários anos em que supostamente era ele quem dava a cara, percebeu que não podia continuar assim. Daí o email enviado diretamente da Suíça para o conselho superior do GES, seis anos depois do esquema que manobrou as contas do grupo.

Ouvido à porta fechada, a seu pedido, por causa dos processos de natureza criminal em que é arguido, o contabilista está a contar a sua versão dos factos que conduziram à derrocada do GES e, por arrasto, do BES. Tudo precipitado pelas contas da ESI, com aquilo que foi classificado como um «erro» de 1,3 mil milhões de euros por Ricardo Salgado.