A ex-diretora do departamento financeiro, mercados e estudos (DFME) do Banco Espírito Santo quis falar à porta aberta na comissão de inquérito, apesar de ser arguida em processos de contraordenação do Banco de Portugal e no processo crime sobre o universo Espírito Santo.

Mesmo assim, Isabel Almeida fez várias revelações aos deputados da comissão de inquérito, durante cerca de seis horas.

O resumo da audição em 15 pontos:

1 - Troika deu um «recado muito forte» ao BES, ainda em fevereiro de 2014, a cinco meses do colapso: o banco precisava mesmo de aumentar o capital, porque o resto das medidas não chegavam. Foi no final de junho que Isabel Almeida perceber que o problema era «muito sério» e o «perigo» estava já na «fronteira» do BES

2 - «Reportei sempre, diretamente e em exclusivo ao dr. Morais Pires», o ex-administrador financeiro (CFO) do BES. Todas as operações tinham a sua «aprovação prévia», «sem exceção». Era ele que fazia a ponte com Ricardo Salgado, de quem Isabel Almeida recebeu instruções diretas, mas deu sempre conhecimento das mesmas ao CFO

3 - Foi  «surpreendida» por integrar a lista de Morais Pires para suceder a Ricardo Salgado. Só soube horas antes de a decisão - já tomada - ser tornada pública

4 - Ricardo Salgado nunca a elogiou tanto como fez na sua audição, no Parlamento,a 9 de dezembro, quando disse que Isabel Almeida esteve «à altura» das circunstâncias. « Não sei qual é o objetivo. Quero acreditar que é genuíno»

5 - Garantiu que as contas da Espírito Santo Internacional (ESI) (cuja ocultação esteve na origem da derrocada do grupo e, por arrasto, do banco) não passavam por si. «As minhas funções eram exclusivamente ao nível do BES. A primeira vez que vi as contas da ESI foi em setembro de 2013»

6 - O «pecado original» estava  nas «contas erradas» que eram dadas a conhecer aos clientes nas notas informativas para investirem em papel comercial da RioForte e da ESI, dado como são mas que, afinal, era tóxico. Para os funcionários, era «completamente impossível saber» que estavam a vender um mau produto

7 - Venda de papel comercial nos balcões do BES: havia dívida do GES colocada em clientes particulares desde 2001, em «montantes significativos». Mais não disse, porque o caso está em segredo de justiça
 
8 - Recusou estar envolvida nas operações do esquema de financiamento que pode ter passado pela Eurofin e Panamá

9 - Até julho de 2014, «o banco nunca recomprou obrigações aos clientes». «As recompras para a carteira do banco foram feitas exclusivamente em julho de 2014 e por isso nunca houve prejuízos na carteira antes disso»

10 - Pediu a Ricardo Salgado e a Morais Pires para explicarem o esquema das obrigações à nova administração de Vítor Bento, em julho, mas ambos recusaram

11 - Foram também eles os dois que decidiram o investimento de 900 milhões de euros da PT na RioForte, dinheiro que a operadora de telecomunicações veio a perder. Houve contradições nos prazos da aplicação: PT falou em três meses, Morais Pires num ano. Não sabe quem da PT negociou com Salgado e Morais Pires, mas assegura que foi uma operação realizada «ao mais alto nível»

12 - Resolução que dividiu o BES em dois – tóxico e Novo Banco – era a única solução possível. Atribuiu à falta de confiança na validade da garantia soberana de Angola a responsabilidade pelo colapso do BES. «Se havia informação de que a garantia  [de Angola] ia ser revogada, então não havia forma de haver outra solução, mesmo privada, para o BES». Não explicou de onde, ou de quem vinha essa informação, mas deu a decisão de retirada da garantia como certa
 
13 - Contrariou as declarações de Álvaro Sobrinho sobre os alegados juros «altíssimos» que o BESA teve de pagar pelos empréstimos concedidos pelo BES. «Desde 2012 que o BESA já não pagava os juros» e as taxas eram «perfeitamente normais»

14 - Não abandonou o cargo, mesmo quando sobre ela caíram as «maiores calúnicas» para lutar «até ao limite» pela preservação do património do banco. Com ressentimento, disse que Morais Pires a «renegou»
 
15 - «Perdi tudo». Confessou isso mesmo, logo na sua intervenção inicial, dando conta de que, com o colapso do banco, sofreu na pele as consequências, como muitos pequenos investidores. Manifestou a sua «profunda tristeza» e «solidariedade»
 
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