O não pagamento pela Grécia dos empréstimos dos parceiros europeus custaria a cada português 106 euros, segundo as contas de um investigador do  think thank Bruegel, um dos mais prestigiados de Bruxelas.

Grégory Claeys fez as contas ao potencial custo para os cidadãos da zona euro caso a Grécia não pague quer os empréstimos do fundo de resgate da zona euro quer os empréstimos bilaterais concedidos pelos parceiros europeus nos últimos anos, tendo indicado à Lusa que calculou que a parte emprestada por Portugal à Grécia são 1.102 milhões de euros, pelo que dividindo pelos pouco mais de 10 milhões de habitantes, um incumprimento helénico custaria a cada português cerca de 106 euros.

Portugal é, ainda assim, dos países que seriam menos prejudicados, logo a seguir à Irlanda, a quem o incumprimento custaria 75 euros a cada irlandês. Isto acontece porque ambos os países estiveram também sob programas de resgate, pelo que a partir de determinado momento deixaram de contribuir diretamente para a assistência financeira à Grécia, através de empréstimos bilaterais.

Os cidadãos que ficariam a perder mais com um incumprimento grego seriam os do Luxemburgo, com 1.013 euros a cada um, seguidos dos alemães, com 684 euros, e os austríacos, com 680 euros.

No total, estima o investigador do grupo de reflexão Bruegel, o não pagamento dos 194.558 milhões de euros concedidos pelo total da zona euro à Grécia, quer através dos empréstimos do fundo de estabilização financeira quer em empréstimos bilaterais (de cada país para a Grécia), custariam 602 euros a cada cidadão da zona euro.

Além do impacto financeiro imediato de não receber a dívida, Grégory Claeys explicou também à Lusa qual considera ser o impacto para Portugal de um provável incumprimento da Grécia perante os credores - o que poderá acontecer já hoje em relação ao Fundo Monetário Internacional - e mesmo uma saída do país da zona euro (o designado ‘Grexit').

Para Grégory Claeys, no imediato, "o efeito pode ser limitado" para Portugal graças ao programa de compra de ativos em larga escala do BCE para estimular a economia (‘quantitative easing'), à possibilidade de usar o programa OMT de compra de dívida pública e também, considerou, porque ao contrário de há alguns anos a dívida grega está concentrada em apenas algumas 'mãos', logo o contágio seria menos alargado.

"Segunda-feira os juros subiram um pouco [na dívida pública], mas ainda não há pânico e pareceu ser mais uma reação emocional à surpresa pela convocação do referendo", afirmou.


No entanto, Grégory Claeys já se mostra mais preocupado com o efeito em Portugal de uma saída da Grécia da zona euro, uma vez que mostraria que a irreversibilidade do euro não é verdadeira e que outros países poderiam seguir-se, pelo que Portugal teria de pagar "um prémio por esse risco" quando emitisse dívida soberana.

Se os mercados viessem a considerar que haveria mesmo um grande o risco de Portugal sair do euro, as taxas de juro poderiam subir tanto que, antecipou, poderia ser criada uma crise de dívida soberana autossustentável: "É por isso que considero que um Grexit deve ser evitado a todo o custo".

Um problema grave na Grécia teria ainda impacto no sistema bancário português, com provável saída de depósitos, disse o economista, já que os aforradores teriam "um incentivo para colocarem o dinheiro nos países do Norte [da Europa] para evitar o risco" de saída de Portugal do euro, mesmo que esse risco fosse considerado reduzido.