O economista António Nogueira Leite disse esta quara-feira que um eventual Governo do PS apoiado por BE e PCP trará um “hiato de abundância” sem ter em conta “a falta de capital” da economia portuguesa.

“Como observador, parece-me que é para ganhar eleições”, afirmou Nogueira Leite, em Coimbra.

A aplicação do programa de Governo do PS, negociado com Bloco de Esquerda, PCP e Verdes, “vai fazer muita gente contente nos próximos anos”, admitiu o professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

“Os políticos, em Portugal, a médio prazo já não pensam”, criticou, ao intervir num seminário subordinado ao tema “A gestão eficiente de energia no setor público”, promovido pela EDP e pelo Jornal de Negócios.

“As empresas espanholas são muito mais capitalizadas do que as portuguesas”, o que constitui “um óbice a que as empresas nacionais possam crescer”, afirmou, para realçar que na atual conjuntura os bancos fazem “mais análise de risco” do que no passado, quando “fechavam os olhos” à eventual insustentabilidade financeira dos investimentos.

Na sua opinião, “temos uma economia sem capital, sobretudo sem capital privado”, e as empresas “funcionam mesmo sem capitais próprios”, numa conjuntura económica que “não vai ajudar adicionalmente” a receita do Estado a crescer.

“A possibilidade de crescer sem capital acabou”, sublinhou Nogueira Leite, que integra a administração da EDP Renováveis.

Em resposta à diretora do Jornal de Negócios, Helena Garrido, que perguntou se os “dois anos de abundância” mencionados pelo conferencista seriam uma alusão a um Governo liderado pelo secretário-geral do PS, António Costa, apoiado por toda a esquerda parlamentar, admitiu que estava a referir-se a essa possibilidade.

Apesar dos “fatores estruturais” que dificultam o crescimento da economia e o aumento das receitas do Estado, pode haver em Portugal “uma política menos restritiva” da vida dos cidadãos, afirmou o gestor, rejeitando, no entanto, “a transformação de dinheiro em votos”, com aumento das despesas do Estado com pessoal e prestações sociais.

Nogueira Leite também criticou a direita portuguesa e o papel de alguns dos seus protagonistas, incluindo a atuação do atual Presidente da República, Cavaco Silva, quando foi primeiro-ministro, entre 1985 e 1995.

Em 1991, o último Governo de Cavaco Silva promoveu “o maior aumento da despesa pública” desde a I República, lamentou.

Por sua vez, “o PSD e o CDS andam há três anos para criar um banco de fomento”, criticou também.

“Não vejo ninguém, à direita e à esquerda, a olhar para o principal problema da economia, que é a falta de capital”, sublinhou.