O ex-ministro das Finanças, Eduardo Catroga, considerou, esta sexta-feira, que a alteração da perspetiva da classificação da dívida portuguesa de «negativa» para «estável» demonstra que Portugal tem ainda «um longo caminho a percorrer» em prol do rigor orçamental.

«Temos ainda um longo caminho a percorrer para consolidar a melhoria da perceção de risco por parte dos investidores e por parte das agências de rating. Não há dúvida que tem havido nos últimos meses uma evolução positiva e é fundamental que, a prazo, passemos para a categoria de investment grade [nível de investimento] que perdemos com a crise da dívida pública e da economia portuguesas», afirmou o economista em declarações à Lusa.

Esta manhã, a agência de notação Standard & Poor's anunciou ter passado a perspetiva da classificação da dívida portuguesa de «negativa» para «estável», explicando a decisão com o facto de a economia de Portugal ter ultrapassado as expectativas.

A agência de rating manteve, no entanto, a classificação de Portugal em «BB», o que significa que continua a considerar que a capacidade de Portugal pagar as suas dívidas como «lixo».

Falando à margem da sessão inaugural do Ciclo de Conferências Mês da Transparência - «Dívida Pública - Como chegámos aqui e o que fazer com este fardo?», que decorreu na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Revista Visão, o antigo ministro das Finanças considerou que há ainda muito a fazer para melhorar o rating de Portugal.

«Temos de convencer os mercados de que vai continuar o rigor orçamental e que vão ser consolidados os sinais de recuperação económica que se têm feito sentir desde o segundo trimestre de 2013», declarou Eduardo Catroga.

Segundo defendeu, «também é fundamental que se confirmem os resultados orçamentais de 2014, e que os riscos que existem, nomeadamente ligados ao Tribunal Constitucional, sejam eliminados».

«As boas avaliações da troika ajudam, mas o sinal que vem das agências de rating é perfeitamente lógico. Fizemos alguns progressos, simplesmente, o ponto de partida de desequilíbrios financeiros e estagnação económica deixa os investidores numa posição de wait and see», rematou Catroga.

Guião da reforma do Estado «peca» pela ausência de definição do Estado

Eduardo Catroga, afirmou, ainda, que o Guião da Reforma do Estado é um «conjunto de princípios gerais» que «peca» pela ausência da definição do Estado que Portugal pode suportar.

«O Guião da Reforma do Estado é um conjunto de princípios gerais, mas peca logo na primeira versão, e não me parece que esta segunda versão corrija, sobre a forma de definir se queremos um Estado que represente 40%, 45% ou 50% do produto Interno Bruto (PIB). Tenho para mim que a função da capacidade contributiva do país, das famílias e das empresas, não permite financiar um Estado que represente mais de 40% do PIB», disse o antigo ministro.

«Não podemos olhar nunca para uma reforma das estruturas, seja do Estado, seja de uma grande organização, seja de uma grande empresa, como um processo que termina num determinado momento. [A Reforma do Estado] é um processo de otimização que se quer permanente», continuou.

O antigo ministro das Finanças reforçou ainda a necessidade de um consenso político em Portugal para levar por diante esta reforma.