Começou o debate quinzenal no dia em que o Orçamento do Estado para 2017 é entregue com um exercício proposto pel'Os Verdes sobre o que estaríamos neste momento o OE fosse da responsabilidade de PSD e CDS. Foi um mote para acusações de fúria, respostas irónicas, novas acusações de fúria e novas respostas irónicas. 

Os pensionistas continuariam a ser fustigados, funcionários públicos a ser fustigados, os rendimentos cortados, os impostos reduzidos, bastava a Comissão Europeia acenar com sanções que teríamos outro pacotes de austeridade. Temos uma direita absolutamente furiosa, furiosa. Repor rendimentos deixa esta direita absolutamente furiosa. Não era essa a sua agenda".

Heloísa Apolónia interpelava o primeiro-ministro que corroborou, depois de dizer que a primeira diferença seria estar a começar esta discussão não "a tempo e horas" como a de hoje, mas com um "primeiro ou segundo orçamento retificativo de 2016".

E a fúria que o PSD e o CDS têm cada dia que passa sem que o diabo apareça, é porque efetivamente aquilo que tem sido possível demonstrar é que o país não se desenvolve, não cresce nem se torna competivido à custa de menos direitos e corte de serviços público".

Defendeu depois António Costa uma das suas expressões preferidas desde a campanha eleitoral: a "trajetória de reposição rendimentos": pensões, salários, diminuição carga fiscal, criar condições para haver mais investimento, criar emprego e riqueza. Dito isto, afirmou que "é possível fazê-lo sem que entremos em divergência com finanças públicas".

É a demonstração de que o modelo que tiveram falhou e que alternativo é possível. Deixa furiosa a direita mas não deixa furiosos os portugueses cada vez mais confiantes no caminho certo".

Governo faz "ficção"

Passos Coelho falou a seguir, tomando nota como "muito significativo" que o debate tenha começado com o convite d Os Verdes à ficção. 

"É uma tendência muito ao gosto da maioria nos últimos meses: discutir a ficção. Gostaria de convidar o senhor PM a discutir a realidade. Sem nenhuma fúria, pelo contrário, como tem sido habitual gostaria de perguntar se já reconhece as modestas perspetivas de crescimento da economia em 2016".

Aí o líder da oposição destacou que Costa foi "muito enfático várias vezes" quando disse e mostrou gráficos a indicar que as metas seriam cumpridas e governo não via nenhuma razão para alterar perspetivas. Passos constatou que a eocnomia não vai crescer "muito mais" do que 1%, "um bocadinho mais" do que isso "talvez". 

"Até hoje crescimento medido representou 0,9%: uma vez que afinal já reconhece que a economia não deverá crescer, de que é que isso resulta? Se o investimento está a crescer, o que tem sido o motor da travagem da economia?", questionou. 

Costa agradeceu "a vontade" de falar sobre a realidade: defendeu que as previsões estão "perfeitamente em linha com as previsões" das instâncias internacionais. E atacou Passos Coelho com os orçamentos retificativos do anterior Governo por comparação com a ausência de retificativos do atual executivo.

Passos insistiu, Costa disse que respondeu mas que o lider do PSD é que não gostou. "A questão fundamental é saber: crescer para quê? O que nós queremos com o crescimento é emprego. E com as suas previsões o desemprego esteve sempre a aumentar e agora o desemprego está a diminuir. As suas previsões eram muito boas mas o rendimento das famílias estava sempre a diminuir e agora está a aumentar.", atirou. 

"O emprego criado é mesmo para corresponder às necessidades do aumento da produção e é isso que alias investimento tem vindo a aumentar e não a diminuir. É sustentado, ancora-se numa expectativa positiva relativamente àquilo que é o crescimento", acrescentou. Passos ainda interveio:

A gente já sabe que ficará a saber que não vale a pena fazer grandes perguntas ao primeiro-ministro porque não sabe responder ou não responde. O país não pode levar a sério nem um PM nem um Governo que falseia a realidade. Bastam os dados de qualquer fonte credível para ver que estão a correr mal". 

Entra o 'olhómetro' no meio

O primeiro-ministro não se ficou, ironizando estar "bastante infeliz" na sua "infinita ignorância" em não poder aprender alguma coisa com Passos Coelho. O líder da oposição ainda tentou incomodá-lo com a evolução das taxas de juro, que Costa desdramatizou, devolvendo culpas ao PSD. 

"Há uma coisa que lhe direi e não direi muito mais por uma questão de responsabilidade. A avolução das taxas de juro ao longo deste ano são explicadas pela forma como foi gerido pelo seu Governo e que me escuso de adjetivar toda a consolidação do sistema financeiro e o senhor deputado sabe bem o que quer dizer".

Passos já não teria tempo para responder, segundo o cronómetro, mas o deputado do PSD Luís Montenegro fez uma interpelação à mesa, dando conta de que teria ainda um ou dois segundos e Costa falou mais de 40 segundos do que o permitido. 

O Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, fez notar que "não é a mesa que controla", mas outra estrutura. "Se substituirmos uma estrutura objetiva pelo olhómetro dos deputados… de qualquer forma como reparei dou a palavra nas mesmas circunstâncias do primeiro-ministro. Faça favor, senhor deputado Passos Coelho".

Arrancou um riso ao líder do PSD, que depois voltou a focar-se na resposta a Costa sobre os juros.

Fico muito esclarecido com a forma como responde, ao dizer o seu governo teve enorme desgraça que foi suceder ao Governo anterior. Quero-lhe dizer que desgraça é herdar um pedido de resgate do país como nós tivemos. Não vale a pena queixar-se muito da herança que recebeu porque foi o senhor que a quis agarrar. E por fim quando quiser comparar a situação financeira do país entre 2011 e 2015 tenho muito prazer em fazer esse debate consigo".

Passos Coelho ficou sem resposta à pergunta sobre quando fará o Governo a recapitalização da Caixa. E já depois da interpelação do PS é que o primeiro-ministro voltou a usar a imagem do "diabo" para acicatar o PSD.

"O diabo não se apresentou aos balcões do SEF com pedido de visto sobre Portugal". O olhómetro, esse, não tem voz na Assembleia, mas tem parede. E foi bem fiscalizada neste debate de fúria.