A técnica do Banco de Portugal Susana Caixinha, que integra o departamento de supervisão prudencial e uma equipa de permanente acompanhamento ao BES e ESFG, ao longo dos anos, garantiu esta quarta-feira que nunca sentiu hostilidade por parte do banco e que sentiu «sempre» que o BES colaborou para que o supervisor da banca levasse avante o seu trabalho de análise de atas e de outros «exercícios transversais». 

Questionada pelo deputado do PSD, Paulo Rios de Oliveira, na comissão de inquérito ao BES /GES, sobre se a presença dos técnicos do Banco de Portugal no banco de Ricardo Salgado era sentida como «hostil», Susana Caixinha respondeu então prontamente:

«De todo. Penso que a nossa presença nunca foi sentida como hostil. Houve sempre colaboração por parte do banco. Por mim falo». O grupo GES «mobilizou recursos» para prestar «toda» a informação. «E era muita informação mesmo».


Referindo que tinha «autonomia» para pedir todos os esclarecimentos necessários, adiantou, ainda,  que os técnicos do BdP tinham «acesso aos anexos e às atas». «E inquiríamos sempre que necessário os órgãos responsáveis».

OS PRINCIPAIS TÓPICOS DA INTERVENÇÃO DE SUSANA CAIXINHA 

A responsável admitiu que «obviamente» quem acompanha o BES «poderá ter uma sensibilidade maior para os problemas do banco». Porém, no desempenho das suas funções, não poderia prever «o desfecho que veio a ocorrer».

Nem nunca sentiu que informação passada ao BdP poderia advir de procedimentos menos corretos: «Não posso falar por todo o Banco de Portugal, mas não».

«Fraudes são muito difíceis de identificar»

Indo de encontro ao que disse, ontem mesmo, o presidente da KPMG, que auditava as contas do BES, também a técnica do BdP admite que as fraudes são muito difíceis de apanhar:

«Quando estamos a falar de fraudes e ainda por cima fora do perímetro de supervisão do Banco de Portugal, são muito difíceis de identificar». «E nada do que constava da informação a que tinha acesso constava qualquer tipo de... pronto»


Disse mais: «Nem os auditores externos têm reportado qualquer informação incorreta, face aos registos contabilísticos do banco». «Nunca foram reportadas situações de incorreções, no âmbito destes exercícios, e situações de incorreções relativas a contabilização», reforçou.

Susana Caixinha acrescentou que «os próprios bancos têm de ter controlos internos que assegurem a fiabilidade da informação» e, lá está, «têm auditores externos», também. Ora, a empresa de auditoria que mais de perto acompanhou o BES foi a KPMG, sendo que o seu líder Sikander Satta, admitiu na sua audição que «mesmo numa auditoria completa, uma fraude, é muito difícil ser detetada».

O que é uma equipa permanente de acompanhamento?

A equipa destacada pelo supervisor da banca é apelidada de «permanente». A técnica do Banco de Portugal esclareceu que os técnicos têm «instalações permanentes e acessos permanentes ao sistema» do BES e que se deslocam ao banco «sempre que necessário», mas frisou: «Não temos de estar lá fisicamente, todos os dias».

Quando são iniciados, os processos de inspeção permanente implicam selecionar a informação que é suposto «receber com regularidade». Os relatórios das equipas do Banco de Portugal são revistos periodicamente por superiores e, posteriormente, são alvo de despachos. O Banco de Portugal remete, a partir daí, as chamadas de atenção que considerar necessárias ás entidades em causa, neste caso a Espírito Santo Financial Group (ESFG) e o BES. «Os processos de inspeção permanente respeitam a todas as ações realizadas presencialmente», clarificou. 

Respondendo à pergunta da deputada do BE, Mariana Mortágua, sobre se alguma vez teve dificuldade no acesso à informação, começou por dizer que as atividades que desempenhou restringiram-se «muito» à analise das atas e aos exercícios transversais, implementados pelo BdP a partir de junho de 2011.

Que tipo de exercícios eram estes? «Análise de crédito ao imobiliário; revisão da imparidade da carteira de crédito»; «um exercício específico só para grupos económicos, no qual foi analisado o GES»; «e outros exercícios de revisão de imparidade do crédito».

Referiu, igualmente, que «todos os exercícios realizados por auditores externos», entre os quais a KPMG, eram revistos pela equipa de Carlos Costa e que existe um «repositório partilhado de toda a informação necessária». A resposta a Mariana Mortágua, sobre a eventual «dificuldade» no acesso à informação surgiu no final desta explicação: «Desse ponto de vista, não».

Já a deputada do CDS-PP, Teresa Anjinho, recordou a atuação «especialmente intrusiva» referida pelo governador do Banco de Portugal, na sua audição, a primeira de todas desta comissão de inquérito. Susana Caixinha disse que, de facto, «ao nível do risco de crédito, nos últimos anos, não houve paralelo» na «quantidade» dos exercícios de inspeção que foram realizados.