Todos - o primeiro-ministro, que deu a sugestão recentemente e continua a defendê-la, como o Presidente da República, o governador do Banco de Portugal e pelo menos uma das auditoras, a KPMG - são favoráveis à criação de um banco mau para lidar com os ativos tóxicos da banca portuguesa, nomeadamente o malparado. A questão é que os banqueiros privados, que podiam ser os principais interessados, não.  

Na conferência organizada pela TVI24 e pela Associação Portuguesa de Bancos, sob o tema "O presente e o futuro do setor bancário, o presidente do BPI foi o primeiro a dizer que não se revê nessa solução que está em debate. 

"Sinto-me completamente ao lado e de vários temas aqui discutidos. Não quero entrar em polémicas, mas sobre o crédito malparado tenho um exercício permanente atualizado sobre o aumento de imparidades que fizemos desde o último ano da época dourada - para nós 2007 -, tenho todas as imparidades que o banco teve de fazer para crédito", começou por dizer.

"Apesar de conjuntamente com o Santander Totta termos dos melhores rácios em crédito, da Península Ibérica, diria que cerca de metade foram erros: ou analisamos mal o risco, ou tendo analisado bem, tomámos uma exposição demasiado grande, um problema de excesso de concentraçaõ de risco. Não foi a economia. O PIB caiu 7%, foi muito doloroso, sim, mas não me venham cá com conversas do sistema e da economia e dessa coisa toda. Há bancos bem geridos e mal geridos"

Fernando Ulrich não culpa, por isso, a evolução da economia para o estado da banca. Diz que essa responsabilidade se deve ao próprio setor. E diz que o BPI não precisa de um banco mau.  

António Vieira Monteiro, líder do Santander, alinha exatamente no mesmo discurso. "Não me revejo em nenhum dos problemas, nunca precisámos de capital, todo o nosso capital resulta do nosso crescimento orgânico, temos uma situação ímpar tal como o BPI".

Acredita que estão em causa  "questões importantes para o sistema bancário", mas sublinhou: "Estamos um pouco ao lado".

Seja como for, deixou a garantia de que o Santander Totta está disposto a colaborar com as  entidades oficiais neste debate.

"É a nossa obrigação mas, efetivamente, banco mau para nós, não. Sempre conseguimos vender os nossos créditos malparados no mercado". 

Ao mesmo tempo, quis deixar várias perguntar no ar: "É bom que se perceba o que é o banco mau:é o italiano, que tem quase duas fases, a garantia que faz subir o rating para vender os créditos no mercado a melhor preço? Será isso? Só que o rating da República de Portugal não permite. Será os bancos bons que vão por uma parte do dinheiro nesse banco mau para poder resolver esses assuntos? Ainda temos uma zona muito cinzenta".

BCP: "Não pedi um banco mau"

Sobre esta estrutura para poder diminuir os riscos dos ativos que estão nos bancos e que não geram rendimento, o presidente do BCP, Nuno Amado disse que não pediu qualquer banco mau e que o seu banco tem um "plano intenso" de redução do crédito em risco para os próximos dois anos.  

"Sabemos que o podemos fazer, já começou. E um plano para a eficiência e solvência do banco. Fizemos um conjunto de aumentos de capital porque foi necessário fazer, assim como o Santander fez em Espanha porque achou que era preciso fazer. Está feito e foi bem feito na minha perspetiva. Estamos a percorrer um caminho qe se calhar foi mais difícil do que noutras instituições, estamos a percorrê-lo bem". 

Defende, e sublinha que é a sua opinião, que "temos de ter acima de tudo um bom sistema bancário, um bom governo sólido e competitivo". Depois, que seja um sistema bancário com "alguma diversificação: uma componente privada forte, uma componente estrangeira, mas também uma componente nacional e multi-origens, não exclusivas". Porque um setor diversificado permite "mais confiança e melhor serviço" aos clientes.

Novo Banco não está à espera da "vinda divina" do banco mau

Questionado depois pelo diretor de informação da TVI, Sérgio Figueiredo, sobre estas posições dos banqueiros, quando o primeiro-ministro defende o banco mau, o governador do banco de Portugal também e até o Presidente da República concorda, o presidente do Novo Banco, Stock da Cunha, com sentido de humor, respondeu: "Pensei que me iam perguntar se o culpado era eu". Eu, leia-se, o Novo Banco, que poderia beneficiar desse novo banco mau a ser criado. 

"Temos os nossos problemas, estão localizados, são grandes", mas "estamos a construir o nosso caminho sem pensar na existência ou na vinda divina de um banco mau". 

Stock da Cunha partilha "totalmente" das opiniões de António Monteiro (Santander Totta) e de Fernando Ulrich (BPI): "Não podemos pôr todos no mesmo saco". 

APB: "Um caminho que não pode ser seguido"

Faria de Oliveira, o presidente da APB, enumerou por sua vez as consequências negativas da eventual criação de um banco mau.

"As iniciativas legislativas dirigidas ao setor bancário que se encontram a ser discutidas na Assembleia da República são o exemplo óbvio do caminho que não pode ser seguido", defendeu, para melhor concretizar depois.

"Se queremos ter sucesso na questão da rentabilidade e no reforço da solidez da banca. (…) Tais medidas, se aprovadas, representariam um agravamento de encargos para os bancos e ameaçariam seriamente a estabilidade do setor"

"Não será bom caminho ignorar o problema" 

O primeiro-ministro falou por último, já que encerrou a conferência e continua a defender o banco mau: "É da maior relevância ultrapassar" o problema do crédito em incumprimento, que afeta "alguns bancos". Não são todos e, como se vê, nem todos concordam com a ideia.

Se o presidente da Associação Portuguesa diz que esse é um caminho que não pode ser seguido, António Costa responde: "Não será bom caminho ignorar o problema. Não existe uma solução fácil mas é necessário trabalhar para encontrar forma de superar essa questão".

O chefe de Governo sabe que as soluções "são hoje mais difíceis do que no passado", visto que as regras europeias mudaram. "As exigências são muito maiores", mas apela a que todos os atores do sistema financeiro que tentem encontrar uma solução. 

Novo Banco e CGD: que solução?

Concretamente sobre o Novo Banco, cuja venda tarda em acontecer e tem vários problemas publicamente conhecidos, António Costa deixa a garantia de que os contribuintes não sairão prejudicados seja qual for a solução encontrada.  

Quanto à Caixa Geral de Depósitos, que precisa de reforçar capital, o primeiro-ministro defende que deve permanecer com capitais "exclusivamente públicos" e, a esse propósito, enviou um recado a Bruxelas, que não quer que o Estado injete capital no banco público.

"Não pedimos privilégios, mas em condições de igualdade das demais instituições, o Estado tem de dispor das mesmas condições dos outros acionistas para o banco de todos poder cumprir as exigências regulatórias".