Não houve passagem de pasta na administração financeira do BES, na sucessão da liderança de Ricardo Salgado. Foi difícil, para a deputada do CDS-PP, Teresa Anjinho, conseguir arrancar uma resposta ao ex-administrador financeiro do BES/Novo Banco, João Moreira Rato, na comissão de inquérito ao BES. Mas, quando conseguiu, o ex-CFO admitiu que quem ocupava antes do cargo, quer era Amílcar Morais Pires, não lhe transmitiu o que quer que fosse relativamente às contas:

«- O seu antecessor passou-lhe a pasta?», perguntou a deputada . «Não», respondeu apenas.

Ainda a custo, Moreira Rato disse que nem antes, nem depois de assumir a administração financeira, eles conversaram:

«- Contactou-o, pediu-lhe esclarecimentos?
- A partir de quando entrei [no BES], não.
- E antes de ter entrado?
- Não.
- E qualquer outro tipo de pedido?
- Que me lembre, não».

Antes, o presidente da comissão de inquérito, Fernando Negrão, já tinha pedido a Moreira Rato para ser «mais assertivo» nas suas respostas.

Foi, de resto, um segundo aviso. Até para admitir que foi sondado pelo Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, para entrar para a administração do BES, na mesma altura em que Vítor Bento lhe fez, formalmente, o convite (início de julho de 201), Moreira Rato teve dificuldade em responder. Só depois da primeira repreensão de Fernando Negrão, lembrando-o que a mentira ou a omissão pode configurar «um crime de desobediência qualificada», é que assumiu que sim.

Também sobre as «lições a tirar» e os «erros a não repetir» , fugiu à pergunta, desta vez da deputada do PS Ana Paula Vitorino, que o acusou de ser «um dos maiores especialistas em colapso financeiros», pois estava no Lehman Brothers, quando este faliu, e no BES, quando este desapareceu.

«Ficará com esse currículo, com essa experiência da especulação financeira internacional…»


Moreira Rato disse apenas: «Nos dois meses em que estivemos no BES e no Novo Banco fizemos muitas medidas bem tomadas».

Antes, o ex-administrador contou aos deputados que, quando chegou ao BES, encontrou um banco bem diferente daquele que lhe tinham transmitido.

Disse, por outro lado, que a recapitalização privada era a única solução que estava em cima da mesa.  Poderia demorar cerca de dois meses, mas isso não seria um problema, ao contrário do que foi argumentado pelo Banco de Portugal, que acabou por decidir pela via da resolução, que dividiu o BES em dois - tóxico e Novo Banco. 

Admitiu contactos com o Governo nos últimos dias do BES, mas só falou com a ministra das Finanças. Pela sua estimativa, o banco perdeu 6 mil milhões de euros em depósitos só das duas últimas semanas de julho. A resolução, recorde-se, foi decidida a 1 de agosto.