O secretário-geral da UGT, Carlos Silva, prestou hoje depoimento como testemunha abonatória do ex-presidente do BES, Ricardo Salgado. O sindicalista foi trabalhador do Banco Espírito Santo desde 1988 até à sua extinção e disse que sempre teve uma relação profissional cordial e de grande respeito para com Salgado.

Carlos Silva admitiu que está em tribunal a pedido do próprio ex-presidente do BES, mas para falar apenas do que conhece: o caráter e trabalho de Ricardo Salgado.

"Vou falar da pessoa, do caráter, daquilo que eu conheci e reconheci durante a minha ligação com o banco e quando ele estava lá. Tudo o resto escapou-me", disse à TVI.

Antes de as pessoas pensarem no politicamente incorreto, devem pensar na sua consciência e na relação que têm com as pessoas. Ele não é nenhum assassino, que eu saiba, se é criminoso ou não essa é uma decisão que caberá aos tribunais".

O sindicalista disse que pode "apenas aferir na relação que tinha com o presidente da comissão executiva do Banco Espírito Santo" e na relação enquanto membro da comissão de trabalhadores. "E não tenho medo nem receio de tudo o resto", assegurou.

Carlos Silva disse também, aqui citado pela Lusa, que os trabalhadores do BES tinham uma “grande admiração” e até “reverência” para com o presidente do banco que, disse, manteve sempre uma “posição honesta, correta”, revelando “grande sensibilidade” para com os problemas dos trabalhadores.

Ele sabia o nome das pessoas, [sabia] apreciar o seu trabalho, reconhecer o mérito [enão exercer represálias sobre dirigentes sindicais, alguns dos quais membros do PCP e que chegaram a cargos de direção]".

Questionado pelo advogado de Ricardo Salgado sobre a ideia que tem sido passada de que “decidia sozinho”, Carlos Silva afirmou que “essa imagem veio depois de 2014”. “Naturalmente” ele era o presidente, mas as decisões “eram colegiais”.

“Não me parece que impunha”, declarou, relatando várias situações em que a Comissão Executiva se reuniu com clientes, com direções regionais e com representantes dos trabalhadores.

Conseguia uma gestão inclusiva. Havia verticalidade nas decisões, mas as propostas também vinham de baixo para cima”.

Carlos Silva referiu ainda a “vaidade” e o “orgulho” que os trabalhadores sentiam no BES, realçando que este deu “passos decisivos” em matéria laboral, nomeadamente na contratação coletiva, que “arrastou outros bancos”. “Nós tínhamos uma camisola muito prestigiada. Quando desapareceu "houve estupefação" e um "sentimento de orfandade".

O líder da UGT recordou que assistiu ao regresso da família Espírito Santo quando se deu a privatização do BES em 1991, altura de um “crescimento orgânico, com a abertura de mais agências e mais espalhadas pelo país”. Já quando se deu o colapso do banco, “houve falta de solidariedade dentro da família”.

Quando ficou sozinho, caiu sozinho. É triste, mas enfim. Depois de 2014 ficou sozinho. Não tenho dúvidas nenhumas”.

Desde março que decorre, no Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão de Santarém, o pedido de impugnação do antigo banqueiro, quanto à contraordenação de 4 milhões de euros, imposta pelo Banco de Portugal, em agosto do ano passado.

Já o ex-administrador Amílcar Morais Pires foi alvo de uma contraordenação de 600.000 euros. Ambos por, apesar de conhecerem a situação líquida negativa da Espírito Santo Internacional, terem permitido que fossem comercializados títulos de dívida desta instituição junto de clientes do banco.

Ao contrário da generalidade das sessões, hoje Ricardo Salgado não esteve presente na audiência de julgament. Há outras agendadas de segunda a quinta-feira até 12 de julho, estando em curso a audição das testemunhas arroladas pelo ex-presidente do BES.